Onde o véu é sinal de liberdade

A deputada Nurcan Dalbudak, de véu, participa de sessão do Parlamento turco. (Foto:  Twitter Mevlüt Çavuşoğlu)
A deputada Nurcan Dalbudak, de véu, participa de sessão do Parlamento turco. (Foto: Twitter Mevlüt Çavuşoğlu)

Enquanto diversos países europeus analisam e aprovam projetos de lei proibindo o uso de vestimentas muçulmanas, como a burca e o niqab, quatro deputadas turcas celebraram sua liberdade na quinta-feira 31 ao entrar no Parlamento vestindo hijabs, os véus que cobrem a cabeça. Foi a primeira vez que isso ocorreu na Turquia, país onde as vestes religiosas eram proibidas em instituições do Estado até o início do mês.

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Debate: a situação da mulher no Oriente Médio

Nesta quarta-feira, a rádio Gazeta AM levou ao ar no quadro As Mulheres são de Vênus um debate sobre a situação da mulher no Oriente Médio. O que motivou o caso foi a prisão de Marte Dalelv, norueguesa que denunciou um estupro em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, e foi detida por “sexo fora do casamento”.

No link abaixo, a minha conversa sobre o tema com a apresentadora Giuliana Sona:

E se você fosse expulsa de um shopping por usar esmalte de unha?

A personagem principal desta história ainda não foi identificada, mas já se tornou uma heroína nas redes sociais. Não sem razão. A mulher em questão, de Riad, capital da Arábia Saudita, enfrentou a famigerada Comissão para a Promoção da Virtude e Prevenção do Vício, a polícia religiosa do país, e postou no Youtube o duelo.

A discussão ocorreu, segundo o jornal Saudi Gazette, no shopping center Hayat. A mulher é abordada por integrantes da polícia religiosa saudita e um deles diz a ela: “Você não vê um fio de cabelo das outras mulheres enquanto fica por aí mostrando seu esmalte em público”. Em seguida, o homem afirma que ela deve deixar o shopping.

A mulher, indignada, se recusa, ameaça publicar o vídeo na internet e, notemos o absurdo, diz que a polícia religiosa tem apenas a missão de orientar e não de perseguir as pessoas.

Por que a polícia religiosa existe?

Entender a existência e da Comissão para a Promoção da Virtude e Prevenção do Vício é entender a política da Arábia Saudita. A polícia religiosa é uma das muitas concessões feitas pela família Saud aos religiosos wahabitas. Desde que o reino foi fundado, em 1932, os Saud obtêm sua legitimidade, em grande parte, dos wahabitas. Como esses professam uma versão ultrarradical do Islã, as concessões miram os costumes e, assim, afetam particularmente as mulheres. Entre outras coisas, as mulheres sauditas não podem dirigir ou alugar um quarto de hotel sozinhas.

Por episódios como este do shopping de Riad, a influência wahabita traz uma péssima publicidade para a Arábia Saudita e deixa indignados parte dos cidadãos do país que não concordam com esse conservadorismo. Atualmente, o rei Abdallah bin Abdul Aziz Al-Saud vem tentando fazer mínimas concessões às mulheres, como a de permitir o voto feminino a partir de 2015. É muito pouco, mas se uma posição da qual não se pode esperar um traço de progressismo é do rei da Arábia Saudita.

Confira abaixo o vídeo, traduzido pelo The Middle East Media Research Institute:

Os homens árabes odeiam as mulheres?

A imagem ao lado mostra a capa da edição maio/junho da revista americana Foreign Policy. A matéria principal, escrita pela jornalista egípcia-americana Mona Eltahawy causou uma enorme polêmica. Intitulada “Por que eles nos odeiam?”, a reportagem atribui a situação da mulher no Oriente Médio a uma “guerra” dos homens contra as mulheres, motivada pelo “ódio” e por uma “tóxica mistura entre religião e cultura”.

Escrevi um artigo para a Carta Capital sobre a polêmica – A Primavera Árabe vai promover os direitos das mulheres? – no qual questiono as generalizações que Mona fez em seu artigo. Ainda que, no geral, a situação da mulher no Oriente Médio seja péssima, ela é muito diferente conforme o país e o grupo social, e nem todos os homens agem de forma machista.

O trecho mais importante do artigo na Carta está abaixo. O tratamento ruim que as mulheres recebem não é exclusividade de países árabes. A sociedade humana, como um todo, é patriarcal, e, assim, a luta das mulheres por direitos iguais é travada em 100% dos países do mundo.

Tudo isso não é para minimizar o drama das mulheres no Oriente Médio. Como afirmou recentemente a escritora barenita Amal al-Malki, nos primeiros meses da Primavera Árabe a participação das mulheres nas manifestações democráticas foi “romantizada”, mas hoje elas perderam a voz novamente. Este cenário só vai mudar conforme o processo de democratização se consolidar no Oriente Médio. Por um simples motivo: a história da democratização do mundo é a história da equiparação dos direitos das mulheres aos dos homens. Esta batalha nunca foi, e não será, simples ou rápida. Ela será feita de avanços, retrocessos e obstáculos. Neste ponto, o exemplo do Brasil é esclarecedor. Em 2010, o Brasil elegeu sua primeira mulher presidente da República, mas entre 2003 e 2011 viu aumentar a diferença salarial entre homens e mulheres. Mesmo as grandes vitórias para as mulheres não se dão de forma tranquila. A aprovação da Lei Maria da Penha, em 2006, e a autorização do aborto de fetos anencéfalos, neste ano, foram acompanhadas de uma onda de críticas de conservadores, muitos deles religiosos, os mesmos setores que, no Oriente Médio, tentam impedir o avanço dos direitos das mulheres. Obstáculos também criam algumas mulheres. Nas eleições legislativas do Egito, milhões de egípcias, votando pela primeira vez de forma livre, escolheram candidatos salafitas, os defensores da versão mais radical do Islã. No Brasil, a ex-apresentadora Mara Maravilha deu recentemente uma entrevista na qual defende a “submissão” das mulheres.

Abaixo seguem alguns artigos escritos a respeito da polêmica levantada por Mona Eltahawy:

Do Arab men hate women? It’s not that simple, de Nesrine Malik, no The Guardian

‘Why Do They Hate Us?’ A Blogger’s Response, de Mona Kareem, no Al Monitor

Love, Not Hatred, Dear Mona!, de Dima Khatib, em seu blog pessoal.

The Real Roots of Sexism in the Middle East (It’s Not Islam, Race, or ‘Hate’), de Max Fisher, na The Atlantic

Dear Mona Eltahawy, You Do Not Represent “Us”, de Samia Errazzouki, no Al Monitor

I don’t really think they hate us!, de Nahed Eltantawy, no blog Tahrir Spirit

Us and Them: On Helpless Women and Orientalist Imagery, de Roqayah Chamseddine, no blog The Frustrated Arab

A mulher no Oriente Médio e a Primavera Árabe

Vale a pena conferir a entrevista que a escritora Amal al-Malki, do Catar, deu para a versão em inglês da rede de TV Al Jazeera, também do Catar. Amal é professora da universidade Carnegie Mellon no Catar e coautora de Arab Women in Arab News: Old Stereotypes and New Media, um estudo sobre como a imprensa árabe retrata a mulher na região.

Amal diz que o único ponto positivo da Primavera Árabe para as mulheres foi o fato de expor para o mundo todo como elas têm seus direitos violados constantemente. Segundo ela, nos primeiros meses da Primavera Árabe, a participação das mulheres nas manifestações democráticas foi “romantizada” e hoje elas perderam a voz novamente. Amal se esforça para dizer que a situação da mulher no Oriente Médio não é fruto do Islã, mas sim de “costumes patriarcais pré-islâmicos” e de “interpretações patriarcais do Islã” que se tornaram lei.

Amal diz ser preciso quebrar a ideia de que se possa fazer uma generalização da “mulher árabe”. Ela lembra que as mulheres árabes vêm de diversos universos diferentes. Segundo Amal, enquanto há muitas mulheres altamente educadas em países do Golfo Pérsico, há milhões de outras que, mesmo educação de qualidade, precisam participar das finanças da família.

Na entrevista, a escritora fala brevemente ainda de outros assuntos polêmicos, como os casamentos consanguíneos no Catar, onde quase metade dos matrimônios são deste tipo, e do assédio sexual no Egito, uma prática, lamentavelmente, muito comum no país.

Apesar do pessimismo, Amal diz ter fé nos movimentos feministas árabes e nas mulheres que desejam fazer uma reinterpretação do Islã por meio de um prisma feminino. Segundo ela, a sociedade árabe precisará ser “reprogramada” para aceitar algo do tipo.