A entrevista de Nasrallah a Assange

Nesta terça-feira (17), quem acompanha o Oriente Médio foi surpreendido pelo nome do convidado de Julian Assange, o fundador do WikiLeaks, em seu programa de estreia no Russia Today, emissora financiada pelo governo da Rússia. Era Sayyid Hassan Nasrallah, o secretário-geral do Hezbollah, grupo xiita fundado para resistir à ocupação israelense no sul do Líbano, mas hoje transformado em uma mistura de guerrilha com partido político – e considerado terrorista por Estados Unidos, União Europeia e Israel.

A entrevista começou bem, mas o resultado foi medíocre, em parte porque Nasrallah se recusou a responder às perguntas, preferindo tergiversar, e em parte porque Assange claramente é um entrevistador inexperiente. O jornal The Guardian classificou Assange de “idiota útil”, o libanês The Daily Star destacou o fato de o Hezbollah ter, supostamente, entrado em contato com opositores sírios. A imprensa israelense em inglês ignorou o fato, a não ser por despachos de agências.

Os trechos abaixo são parte de análise que escrevi para o site da Carta Capital. No fim, a íntegra da entrevista, em inglês.

O início do programa foi auspicioso. Assange começou questionando Nasrallah sobre o que seu grupo consideraria uma vitória contra Israel. Ouviu como resposta a posição radical do grupo libanês, que deseja acabar com a existência do Estado judeu. Para Nasrallah, a existência de Israel “é ilegal”, a “Palestina pertence aos palestinos” e a única solução viável é o estabelecimento de um Estado único, no qual muçulmanos, judeus e cristãos convivam juntos. Depois, Assange fez perguntas capazes de incomodar Nasrallah. A primeira, sobre o que Nasrallah chamou, segundo documentos vazados pelo WikiLeaks, de “comportamento corrupto” de membros do grupo, que estariam andando com carros do tipo SUV, usando roupas de seda e comendo em restaurantes caros. Nasrallah negou ter feito este comentário, mas afirmou que tais comportamentos eram fruto da entrada de membros mais ricos no grupo. Depois, no ponto alto da entrevista, Assange perguntou a Nasrallah por que o Hezbollah apoiou os movimentos da chamada Primavera Árabe em países como a Tunísia e o Egito, mas não na Síria. Nasrallah respondeu de forma pragmática. Disse que o regime sírio de Bashar al-Assad “sempre apoiou a resistência a Israel e aos Estados Unidos” e que o Hezbollah pediu e pede a Assad que reformas democráticas sejam realizadas na Síria.

Na segunda parte do programa, a entrevista virou ferramenta para a propaganda do Hezbollah. Assange perguntou diversas vezes sobre até onde o grupo libanês apoiaria Assad, mas não obteve resposta. Como costuma fazer o ditador sírio, Nasrallah acusou países árabes e a rede terrorista Al-Qaeda de apoiar a oposição síria e desestabilizar o país. E deu uma informação nova. Segundo ele, o Hezbollah procurou setores da oposição síria para pedir que aceitassem dialogar com Assad, mas não teve sucesso.

A parte final da entrevista foi um desastre. Assange chamou Nasrallah de “guerreiro da liberdade”, se perdeu com uma pergunta inútil sobre as estratégias do Hezbollah para enganar oficiais da inteligência israelense, e terminou a entrevista perguntando por que Nasrallah não luta contra “a ideia totalitária da existência do monoteísmo”. O chefe do Hezbollah se prolongou em sua tese teológica e a entrevista acabou por aí.

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