O Hamas está moderando suas posições?

Jean Asselborn, (o segundo sentado da esquerda para a direita), ministro do Exterior de Luxemburgo, durante visita a Gaza em fevereiro de 2011. É preciso tentar dialogar com o Hamas
Jean Asselborn, (o segundo sentado da esquerda para a direita), ministro do Exterior de Luxemburgo, durante visita a Gaza em fevereiro de 2011. É preciso tentar dialogar com o Hamas

Peter Beinart e Jeffrey Goldberg, dois dos jornalistas que mais entendem de Israel nos Estados Unidos, estão atualmente travando uma briga sobre um assunto que merece uma profunda reflexão. O Hamas, grupo extremista que prega em seus documentos oficiais a destruição de Israel e o assassinato de judeus, estaria moderando suas posições?

Este assunto é de extrema importância porque a posição do Hamas é determinante para a retomada e o avanço das negociações de paz entre israelenses e palestinos. Israel, os Estados Unidos e a Europa consideram (com razão, diga-se) o Hamas um grupo terrorista e um parceiro não confiável para negociações. Isso pode emperrar as negociações porque, atualmente, o Hamas mantém um acordo com o Fatah, o partido chefiado por Mahmoud Abbas, este sim considerado confiável. Assim, israelenses, americanos e europeus podem entender que negociar a paz com os palestinos seria negociar também com o Hamas.

Aqui entra Peter Beinart. Para ele o Hamas está moderando seu discurso nos últimos anos. Essa tese está em textos publicados por ele na internet, mas principalmente no livro The Crisis of Zionism, lançado em março acompanhado de enorme polêmica. Em texto publicado no The Daily Beast, Beinart cita falas dos dois principais líderes do Hamas – Khaled Meshal e Ismail Haniya – nas quais eles cumprem duas das três exigências do Quarteto (ONU, EUA, Rússia e UE), reconhecer Israel e os acordos de paz existentes.

Beinart pondera duas coisas: 1) tais comentários não são posições firmes do Hamas e 2) o Hamas ainda tem um longo caminho pela frente para se tornar um parceiro confiável para a paz, o que inclui mudanças em seus absurdos documentos oficiais antissemitas.

No site da The Atlantic, Goldberg critica essa posição de Beinart e classifica o colega de “ingênuo” por dar “o benefício da dúvida ao Hamas“. Segundo ele, o Hamas “é uma organização antissemita extremistas que tem o sangue de centenas de crianças judias em suas mãos”.

Na definição sobre o Hamas, Goldberg está certo. Eu sei disso, Beinart sabe disso e qualquer iniciado em Oriente Médio sabe disso. No geral, entretanto, Beinart deve ser ouvido. Ainda que seja entendível a postura de Israel e Estados Unidos – “não negociamos com terroristas” – ela é bastante contraproducente. Simplesmente porque o Hamas controla a Faixa de Gaza, tem muito apoio entre os palestinos e é um grupo que influencia diretamente a busca pela retomada das negociações.

Ainda que o Hamas tenha tudo de ruim que um parceiro de negociações pode ter, é preciso haver um canal de diálogo com o grupo. Alguém precisa fazer este trabalho “sujo” e, fora o Egito e alguns países europeus, ninguém parece ter disposição/possibilidade de fazer isso. Seria preciso um país neutro, no qual os líderes do Hamas – e também Israel e os EUA – pudessem confiar. Em janeiro de 2010, quando ainda era ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim abriu essa possibilidade. “Tivemos um contato informal no passado, mas se isso fosse de ajuda, eu não excluiria”, disse Amorim sobre um possível diálogo com o Hamas.

Não acredito que Beinart, Amorim ou qualquer um que defende negociações com o Hamas seja ingênuo. Talvez, sejam otimistas demais, mas esta é uma característica que falta aos envolvidos no processo de paz.

Foto: Shareef Sarhan / UN Photo

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