No debate entre Moussa e Aboul Fotouh, todos os medos do Egito

Na quinta-feira passada, o Egito teve seu primeiro debate eleitoral da história. Organizado pelos canais privados ONTV e Dream TV e mediado pelos jornalistas Mona El-Shazli e Yusri Fouda o debate teve como participantes os dois líderes das poucas pesquisas de opinião divulgadas até aqui para a eleição presidencial de 23 e 24 de maio: Abdel Moneim Aboul Fotouh, médico de 60 anos, ex-membro da Irmandade Muçulmana, e Amr Moussa, de 75 anos, ex-secretário-geral da Liga Árabe. O debate, que acabou apenas às 2 horas da manhã de sexta-feira, expôs os maiores medos dos egípcios e também de observadores internacionais: a grande influência que visões fundamentalistas do Islã podem ter no futuro do país e a constante presença dos felul, os remanescentes do regime do ditador Hosni Mubarak.

Aboul Fotouh tentou retratar Moussa como um felul. Moussa serviu como ministro do Exterior de Mubarak por dez anos. Em 2001, foi indicado por Mubarak como chefe da Liga Árabe em parte porque o ditador não via com bons olhos a popularidade de seu chanceler. Quando o Despertar Árabe chegou ao Egito, em janeiro de 2011, Moussa não demorou a se distanciar de Mubarak. Esta foi, por sinal, sua defesa neste ponto.

Política externa no debate: O que Aboul Fotouh e Amr Moussa pensam sobre Israel e o Irã

Moussa, por sua vez, tentou retratar Aboul Fotouh como um radical islâmico. Moussa lembrou o passado do médico como integrante do Grupo Islâmico (Al-Gama’a al-Islamiyya), que hoje abandonou a violência e virou partido político, e da Irmandade Muçulmana. Moussa acusou Aboul Fotouh de se preocupar apenas com os interesses da Irmandade e não do Egito e insinuou que, por ter o apoio de grupos salafistas (religiosos ultrarradicais), Aboul Fotouh teria uma agenda secreta de islamização da sociedade.

Em janeiro/fevereiro de 2011, quando estive no Egito pela revista Época, conversei brevemente com Aboul Fotouh e não tive a impressão de que ele fosse um radical islâmico. Pelo contrário. Ele pareceu ter uma visão “progressista” da lei islâmica – que diz querer aplicar no Egito – e me disse textualmente: “Para nós, sharia significa liberdade, justiça e desenvolvimento, e não cortar as mãos de criminosos e oprimir a mulher. Afirmar que defenderemos este tipo de coisa é dizer que todos os muçulmanos não são civilizados”. Aboul Fotouh foi convidado a se retirar da Irmandade Muçulmana pois desejava ser candidato à presidência do Egito. O grupo, inicialmente, rejeitava a hipótese de ter candidato. Agora, decidiu lançar Mohamed Morsi.

Como ocorre no Brasil, na França, nos Estados Unidos e provavelmente em todos os países que realizam debates, o programa egípcio serviu pouco para discutir questões essenciais como saúde, educação e cobrança de impostos. Os ataques pessoais, trazendo os medos do fundamentalismo e dos felul à tona, se sobressaíram. Como, espera-se, os egípcios entenderão daqui para frente, a democracia nem sempre funciona como gostaríamos.

Aqui, análises do debate no Egypt Independent, no Al-Ahram e no The Washington Post. Abaixo a reportagem da Al Jazeera sobre o debate (tudo em inglês):

Há também transcrições não-oficiais do debate (em inglês) e a íntegra do debate, em vídeo (em árabe):

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