O que Fernando Henrique Cardoso entende de Oriente Médio?

A julgar pela entrevista que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) deu para Maria Cristina Frias, na Folha de S.Paulo (para assinantes) de 30 de abril, a resposta para a pergunta acima é muito pouco. FHC passara por Catar e Emirados Árabes Unidos e, na única pergunta sobre a região, disse o seguinte:

Como o sr. vê o resultado da Primavera Árabe?
Como você vai ligar esse mundo da conectividade imediata com as instituições? Montesquieu são as instituições. Rousseau é a vontade geral. Agora deu uma explosão da vontade geral. E cadê as instituições? Não sei se no Egito vem uma ditadura muçulmana. Depois da explosão, é difícil conter tudo, mas um predomínio [do regime muçulmano] é mais provável. Na Tunísia, mais modernizada, pode dar uma acomodação entre Montesquieu e Rousseau. A gente pensa que, feita a explosão rousseauniana, vem a democracia. Não, vem um ponto de interrogação. Por outro lado, há as forças de mercado, empresas que impulsionam. Será um processo de 20 anos.

Deixando de lado do fato de que ainda não é possível concluir qual foi o “resultado” dos movimentos da Primavera Árabe, FHC se saiu com uma resposta malandra. Apelou para a sociologia e para Montesquieu e Rosseau e deu uma resposta com pouquíssimo conteúdo. De bom, falou pelo menos que os países do Oriente Médio precisam agora é de instituições. De fato, este é o maior desafio da região. Sem o estabelecimento de instituições democráticas e de governança, não haverá mudança alguma por lá e, como também frisou FHC, isso deve demorar alguns anos.

O grande problema de FHC é afirmar que o “predomínio de uma ditadura muçulmana” é o resultado mais provável. Este é um pensamento pessimista, ultradireitista e ignorante. Como FHC não é ultradireitista, suponho que ele simplesmente não manja nada de OM.

Não há um estudioso sério do Oriente Médio que ainda fale no surgimento de governos como o do Irã pela região. Sem dúvida, as interpretações mais rígidas (e também ignorantes) do Islã e da sharia (a lei islâmica) causarão inúmeras tensões. Com mais democracia na região, a tendência a longo prazo é o islamismo radical perder espaço. Por um motivo simples, mas que os ultradireitistas (e/ou os ignorantes) insistem em não entender: o Islã radical cresceu e se fortaleceu graças aos regimes autoritários (monarquias absolutistas e ditaduras) que dominam o Oriente Médio. Quando estes forem saindo de cena (o que deve ocorrer aos poucos), as justificativas para o fundamentalismo perderão espaço.

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