Quem é o xeique cego? Por que Mohamed Morsi quer soltá-lo?

Mohamed Morsi faz discurso na praça Tahrir, na sexta-feira 29. Foto: Bora S. Kamel / Flickr
Mohamed Morsi faz discurso na praça Tahrir, na sexta-feira 29. Foto: Bora S. Kamel / Flickr

O novo presidente do Egito, Mohammed Morsi, fez nesta sexta-feira 29 um discurso para uma multidão na praça Tahrir, no Cairo, em uma cerimônia informal na qual foi empossado no cargo (a oficial deve ocorrer na Suprema Corte em alguns dias). Morsi disse não temer ninguém a não ser Deus, algo interpretado como desafio aos militares, e voltou a prometer que será o presidente de todos os egípcios. Um detalhe no discurso de Morsi chama a atenção. Ele retomou nesta sexta uma promessa um tanto alarmante que fizera na campanha presidencial. O novo presidente do Egito quer libertar Omar Abdul Rahman, o “xeique cego”.

Quem é o xeique cego?

Omar Abdul Rahman, o xeique cego, em foto que fazia parte do processo contra Zacarias Moussaoui. Foto: Paul E Ester
Omar Abdul Rahman, o xeique cego, em foto que fazia parte do processo contra Zacarias Moussaoui. Foto: Paul E Ester

Omar Abdul Rahman (ao lado) é um dos islamistas mais importantes do Egito. Hoje com 74 anos, ficou famoso criticando o ditador Gamal Abdel Nasser e foi preso (por seis meses, depois inocentado) sob acusação de conspirar para matar Anwar al-Sadat, então ditador do Egito, em 1981. Ele emitiu fatwas (decisões religiosas) encorajando o assassinato e o roubo de cristãos no Egito e foi o líder do Al-Gama’a al-Islamiyya, o Grupo Islâmico. Antes de se transformar num partido (que concorreu nas últimas eleições), o Grupo Islâmico aterrorizou o Egito com atentados como o de Luxor, uma impressionante chacina de turistas estrangeiros. Soma-se a isso a passagem do xeique cego pelos Estados Unidos e pelo Canadá. Lá ele emitiu fatwas autorizando assaltos a banco e o assassinato de judeus, pregou contra os EUA com uma retórica altamente inflamada e planejou atentados terroristas em Nova York, crime pelo qual foi condenado à prisão perpétua em 1995. Ele teria também tido participação nos atentados terroristas ao World Trade Center em 1993, mas isso nunca foi provado.

Ao defender a soltura de Rahman, Morsi está buscando o apoio de parte de seus eleitores. A libertação do xeique é uma causa cara a milhares de egípcios (e outros muçulmanos), especialmente os salafistas (religiosos ultrarradicais) que carregam retratos de Rahman em diversas manifestações.

O problema de Morsi fazer isso é deixar margem para o surgimento de manchetes como “Morsi promete trabalhar pela libertação de xeique que planejou terror nos EUA“, como estampou nesta sexta o jornal The New York Times. É um tremendo erro estratégico para um ex-membro da Irmandade Muçulmana (ele deixou o grupo após ser eleito) cujo objetivo deveria ser evitar alarme entre os cristãos e seculares egípcios, americanos e israelenses. Com declarações como essa, Morsi faz o contrário. Provoca temores.

A Irmandade, como entidade, foi mais esperta. Segundo o NYT, um porta-voz do grupo disse que Morsi não cogita pedir a inocência do xeique cego, mas sim buscar sua extradição sob argumentos humanitários. Também ao NYT, um integrante do governo americano deu a resposta: “Há chance zero de isso acontecer”.

Foto principal: Bora S. Kamel

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