Para a mídia brasileira, Breivik não é um terrorista. Por quê?

Autor de massacre, atirador ultradireitista, atirador da Noruega, atirador norueguês e extremista. Essas são algumas das definições usadas pela imprensa brasileira para designar Anders Behring Breivik, o homem que, em julho de 2011, matou 77 pessoas na capital da Noruega, Oslo, e na ilha vizinha de Utoya. Nesta semana, Breivik foi condenado a 21 anos de prisão, prorrogáveis, e chamou a atenção a dificuldade que a mídia brasileira tem de chamar Breivik de “terrorista”.

Classificar uma pessoa, um grupo ou mesmo um ato como terrorista é uma atitude que embute um juízo de valor pois, como afirmou Gerald Seymour em Harry’s Game, “o terrorista de um homem é o guerreiro da liberdade de outro homem”. Ainda assim, pelas definições mais simplórias do que é terrorismo, Breivik não pode ficar livre deste rótulo.

Em Terrorism – A Very Short Introduction, Charles Townshend discute o relativismo no conceito de terrorismo, e estabelece que a “essência de um ato terrorista é o uso de violência pelos que têm armas contra os que não tem armas”, mas não só isso: é também o uso de violência (ultrajante) por motivação política e uma estratégia política em si. Os atos de Breivik caem nesta classificação. Naquele dia de julho, Breivik não apenas atirou contra adolescentes desarmados de um partido de esquerda norueguês como colocou uma bomba num escritório do governo da Noruega.

A reticência de chamar Breivik de terrorista contrasta com a facilidade com que alguns jornalistas brasileiros classificam grupos muitos mais complexos, como o Hamas e o Hezbollah, por exemplo, de terroristas. Ambos realizaram inúmeros atos terroristas ao longo de sua história, mas são instituições muito mais amplas que isso. São, nos territórios palestinos ocupados e no Líbano, partidos políticos.

A que se deve esta diferenciação? Aparentemente, para a mídia brasileira, que em assuntos internacionais serve como uma caixa de ressonância para a mídia anglo-saxã, terrorista é apenas aquele que “nos” ataca, ou seja, o que ataca a “civilização ocidental”, da qual o Brasil não faz parte se adotarmos os termos definidos por Samuel Huntington. Assim, terrorista é apenas o árabe ou o muçulmano, nunca o “atirador ultradireitista”.

Uma prova já clássica de como a mídia reage ao terror de Breivik foi dada no dia em que ele cometeu seus atentados. Uma publicação dirigida por um jornalista de tendências anti-árabes e anti-muçulmanas veiculou reportagem sobre os ataques citando inúmeras vezes a rede Al-Qaeda e o Afeganistão, mesmo tendo informações de que o ato de terror teria sido causado por um homem de aparência norueguesa e de que os ataques poderiam ter sido provocados pela ultradireita. Afinal, para este jornalista e muitos outros, atos de terrorismo só podem emanar do “outro”, o árabe e/ou muçulmano.

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