A nova política externa do Egito

Mohamed Morsi em encontro com líderes da União Europeia, em setembro. Com ele, a política externa do Egito começou a mudar. Foto: European External Action Service

Durante a ditadura de Hosni Mubarak, a política externa do Egito era de fácil entendimento. O Egito era um mero “proxy”, uma espécie de agente, dos Estados Unidos, que servia como caixa de ressonância para a política externa norte-americana. Assim, Cairo era hostil aos palestinos do Hamas e ao Irã e dócil com Israel. Ao mesmo tempo, Mubarak manipulava dois sentimentos latentes na sociedade egípcia, o anti-Israel e o anti-EUA a seu favor. Da boca para fora, Mubarak e seus asseclas culpavam EUA e Israel por tudo, alimentando o sentimento contrário a esses países e tirando o foco de seus próprios (e inúmeros) erros. Na prática, não fazia nada contra ambos. No Egito pós-Mubarak as coisas são diferentes.

Para os egípcios, o posicionamento do país entre os árabes e no resto do mundo é importante. Na revolução de 25 de janeiro, os egípcios mostraram cansaço do autoritarismo e do fracasso do governo Mubarak, mas a submissão aos EUA e a Israel também incomodavam. Um novo governo democrático, qualquer que fosse, seria obrigado a responder a esses anseios. No governo de Mohamed Morsi, membro do Partido Liberdade e Justiça, braço político da Irmandade Muçulmana, é isso o que ocorre.

É preocupante para Israel e para os EUA o papel preponderante da Irmandade e do PLJ no novo Egito. Especialmente porque os rumos do país não são mais tão previsíveis. Oficialmente, o PLJ busca se distanciar de assuntos de política externa. Em entrevista ao jornal Al-Ahram, Essan el-Erian, presidente do PLJ, evitou comentar temas específicos, mas falou sobre a política externa do Egito em termos gerais. Morsi precisa, como qualquer outro presidente eleito, nas palavras de Erian, “levar em consideração o sentimento de seus cidadãos”. O Egito deve, segundo Erian, “estar aberto a todo o mundo” e não a um único país (leia-se EUA) e deve perseguir “seus próprios interesses, não os interesses de outras partes” (leia-se EUA).

Em entrevista ao The New York Times, Morsi deixou as coisas ainda mais claras. Depois de o presidente dos EUA, Barack Obama, dizer que o Egito não era um “aliado” americano, Morsi afirmou que enxerga os dois países como “amigos de verdade”. O presidente egípcio salientou, entretanto, os problemas que os EUA terão ao lidar com um Oriente Médio mais democrático.

O primeiro deles: a responsabilidade pelo passado. “Sucessivas administrações americanas essencialmente compraram com o dinheiro dos impostos americanos a aversão, senão o ódio, dos povos da região”. É uma óbvia referência ao apoio dos EUA a ditadores da região e a Israel contra os palestinos. O segundo: a questão palestina. Para Morsi, o tratado de paz entre Egito e Israel, mediado e assinado pelo EUA, inclui o compromisso de dar aos palestinos controle sobre seu próprio destino. Com a ocupação civil e militar por parte de Israel na Cisjordânia, isso não ocorre.

A questão palestina e o fim da subserviência aos EUA (que não significa hostilidade automática ou mesmo inimizade) são causas caras aos egípcios. Cedo ou tarde, essas duas faturas serão cobradas de Washington. A Casa Branca, sob Obama, já percebeu que a política externa do Egito mudou. Como, e se, os EUA vão se preparar para isso depende unicamente da administração que estiver no poder.

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