No Líbano, Exército pode ter papel central para evitar o caos

Soldados libaneses em imagem de 2009. Foto: Giorgio Montersino / Wikimedia Commons

A escalada do conflito entre os opositores de Bashar al-Assad na Síria e seus aliados vai, inevitavelmente, continuar afetando o Líbano. O assassinato do chefe da Inteligência civil libanesa, Wissan al-Hassan, na semana passada, trouxe de volta o temor de que o Líbano retorne para a tragédia da guerra civil. Por enquanto, há alguma violência, mas não se observa um conflito aberto entre xiitas, sunitas e cristãos maronitas. Para evitar a guerra, o papel do Exército do Líbano é fundamental.

Em 2005, o ex-primeiro-ministro Rafik Hariri (sunita) foi morto em um atentado em Beirute. O assassinato jogou a comunidade sunita contra a Síria (que controlava o Líbano, inclusive militarmente, entre 1991 e 2005), colocando-a em confronto com a comunidade xiita, que permanece pró-Síria. Os cristãos encontram-se divididos. Uma parte integra a aliança 14 de Março (anti-Síria) e outra está com a aliança 8 de Março (pró-Síria), da qual faz parte do Hezbollah.

O Exército do Líbano está acima dessas divisões. Ele é composto por cristãos, xiitas e sunitas e é visto pela grande maioria dos libaneses como a principal, e às vezes a única, instituição legitimamente nacional. O Exército, atuando de forma isenta, ajudou a garantir a estabilidade no Líbano nos momentos mais tensos da história recente do país: durante a explosão de violência que se seguiu ao assassinato de Hariri; quando a investigação da ONU sobre o atentado expôs membros do Hezbollah, em 2011; e nos últimos meses, diante da tensão provocada pela guerra civil da Síria dentro do Líbano.

Diante deste estado de coisas, o Exército do Líbano pode ajudar a manter o país estável no curto e no longo prazo.

Como instituição genuinamente nacional, o Exército libanês tem papel político importante, ao qual não se furta. No Líbano, vigora um sistema político confessional, no qual as vagas no Legislativo e os principais cargos, incluindo o presidente e o primeiro-ministro, são reservados conforme a religião do político. Este sistema faz com que os líderes políticos locais recorram a governos estrangeiros (como os da Arábia Saudita e da Síria) e a discursos sectários em momentos de crise. É o que está ocorrendo agora. Assim, ao mesmo tempo em que ocupas ruas, desbloqueia estradas e combate os milicianos armados (de todas as religiões), o Exército vai a público pedir calma e discursos razoáveis por parte dos políticos. É uma forma de dizer que a instituição, fiadora da estabilidade, está alerta.

A longo prazo, a atuação do Exército é mais complexa. A estabilidade do Líbano tem como sinônimo o desarmamento do Hezbollah, a única das milícias que, ao fim da Guerra Civil Libanesa, se recusou a entregar suas armas. Hoje em dia, o braço armado do Hezbollah é tão forte militarmente que supera em força o próprio Exército do Líbano. Países estrangeiros, entre eles os Estados Unidos, temem que, ao armar o Exército, estarão fortalecendo o Hezbollah. Em artigo no Small Wars Journal, Robert Sharp e Sterling Jensen afirmam que a lógica é inversa. Quanto mais forte o Exército do Líbano, mais fraco será o Hezbollah, pois o primeiro poderá assumir funções como a de proteger a fronteira sul do Líbano (de Israel), papel que hoje cabe à milícia sunita. Um Exército forte, assim, tornaria ainda mais ilegítima a manutenção do braço armado do Hezbollah.

Armar o Exército não significa que este vai enfrentar o Hezbollah. Um estudo publicado em 2009 pelo Center for Strategic & International Studies conta que cerca de 30% dos militares libaneses são xiitas. Este fato, somado ao papel de isenção que o Exército toma para si, torna inviável um confronto que, obviamente, é indesejável.

O desarmamento completo do Hezbollah, caso ocorra algum dia, só se dará por completo num contexto ainda complicado – provavelmente quando houver paz entre Israel e palestinos (uma análise sobre isso será feita num próximo post). Quando isso ocorrer, o Líbano precisará ter um Exército capaz de manter coeso e proteger o território libanês.

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