A Al-Jazeera chega aos Estados Unidos

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Imagem de edição do programa “Inside Story Americas”, levado ao ar em dezembro pela versão em inglês da Al-Jazeera

Após seis anos de tentativas, a Al-Jazeera, emissora de televisão financiada e controlada pelo governo do Catar, finalmente conseguiu um caminho para se comunicar diretamente com o público norte-americano. A Al-Jazeera comprou a Current TV, canal a cabo disponível em 40 milhões das 100 milhões de residências dos EUA com TV a cabo. A negociação, divulgada em primeira mão pelo blog Media Decoder, do jornal The New York Times, foi confirmada pela emissora árabe.

Segundo o Media Decoder, a Al-Jazeera não vai apenas retransmitir sua versão em inglês, aberta em 2006, mas vai criar um novo canal, a Al Jazeera America, baseada em Nova York e cuja programação será em grande parte produzida dentro dos Estados Unidos. Em um comunicado, a Al-Jazeera anunciou que dobrará o número de funcionários nos EUA, chegando a mais de 300. Eles vão trabalhar nas cinco sucursais já existentes – Nova York, Washington, Los Angeles, Miami e Chicago – e em outros escritórios que serão abertos.

Ainda segundo o blog, dois dos atuais donos da Current TV, Joel Hyatt e o ex-vice-presidente dos EUA Al Gore, vão permanecer no conselho da Al Jazeera America. Não há informação oficial sobre o valor da negociação, mas a Current TV teria sido vendida por cerca de 500 milhões de dólares. Cerca de 100 milhões teriam ido diretamente para Al-Gore, dono de 20% da emissora.

“Porta-voz de Bin Laden”

A permanência de Gore, ex-vice-presidente e ex-candidato a presidente dos EUA, à frente da nova empresa deve provocar uma certa polêmica. É Gore o líder do lobby a favor da Al-Jazeera America, uma marca que atrai muito preconceito nos EUA. Durante o governo de George W. Bush, quando a Al-Jazeera (ainda apenas em árabe) transmitia o impacto da invasão liderada pelos EUA ao Iraque sobre os civis, bem como as mensagens de Osama Bin Laden e outros militantes da Al-Qaeda, ela foi tachada de “porta-voz do terrorismo” pela Casa Branca. Essa imagem ainda persistente nos EUA.

Com a criação do serviço em inglês, a Al-Jazeera tentou entrar no mercado norte-americano, mas não teve sucesso. Empresas de TV a cabo como a Comcast e a DirecTV barraram o canal de suas programações. Ainda na noite de quarta-feira 2, ao saber da venda da Current TV para a emissora árabe, a Time Warner Cable anunciou o rompimento imediato do contrato com a Current TV. A alegação é de que o acordo entre as duas partes possui uma cláusula prevendo o fim do acordo em caso de mudança no quadro de acionistas.

A hostilidade à Al-Jazeera não deriva apenas de questões políticas. Pelo Twitter, Dan Gilmor, professor de jornalismo da Universidade do Estado do Arizona, classificou a decisão da Time Warner como exemplo de “covardia política e jornalística”. Gilmor tem razão, pois a Al-Jazeera só faz crescer e ganhar importância nos últimos anos. Sua entrada no mercado norte-americano é vista com preocupação não por supostamente ameaçar os valores norte-americanos, mas porque é uma concorrente de peso, e com muito dinheiro, que chega para disputar o mercado com as grandes emissoras noticiosas, como a CNN, a Fox News e a MSNBC.

Forte concorrência

A superioridade da Al-Jazeera sobre as emissoras norte-americanas ficou clara com o início da chamada Primavera Árabe. As versões em árabe e em inglês da Al-Jazeera estiveram e permanecem até hoje na vanguarda da cobertura das manifestações populares na região. Em fevereiro de 2011, em meio aos primeiros protestos, a então secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, participou de audiência no Comitê de Política Externa do Senado americano e usou o termo “guerra da informação” para classificar a abertura de canais internacionais de televisão, transmitidos em língua inglesa. Hillary disse que, após o fim da Guerra Fria, os Estados Unidos deixaram de “levar sua mensagem para o exterior” e, agora, estavam “pagando o preço por isso”. Ela citou os canais da Rússia (RT) e da China (CCTV), mas fez elogios claros à Al-Jazeera.

“Você tem uma série de emissoras globais, entre as quais a Al-Jazeera é a líder, que estão literalmente mudando as mentalidades e atitudes das pessoas. E, goste disso ou odeie, é [um processo] realmente efetivo”, disse Hillary. “Você pode não concordar com ela, mas você sente que está recebendo notícias de verdade 24 horas por dia em vez de um milhão de comerciais e debates entre ‘cabeças falantes’ e outras coisas que fazemos nos nossos noticiários e que não são particularmente informativas para nós, quanto mais para estrangeiros”, afirmou Hillary.

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A importância da Al-Jazeera extrapola a questão jornalística. A emissora é parte importante da criação do que o analista Mohammed El Oifi, do Instituto de Estudos Políticos de Paris, chamou de “espaço público transnacional” no Oriente Médio. Segundo El Oifi, por meio deste espaço boa parte do mundo árabe teve contato pela primeira vez com países democráticos, com uma imprensa independente e com uma pluralidade de opiniões rara na região, características fundamentais no caldo de cultura que originou a “Primavera Árabe”.

A importância da Al-Jazeera não a exime de críticas. Para se estabelecer no mercado norte-americano, a emissora terá de lidar com elas. A versão em árabe tem uma forte tendência anti-Israel e favorável aos grupos do chamado islã político, como a Irmandade Muçulmana, atualmente no governo do Egito. Apesar de ter se colocado ao lado de muitos movimentos pró-democracia, a versão árabe da Al-Jazeera pouco cobriu o levante no Bahrein, país aliado ao Catar, dono da Al-Jazeera. A versão em inglês da Al-Jazeera têm um noticiário também anti-Israel, mas muitas vezes também anti-Estados Unidos. O canal, entretanto, fez uma cobertura muito melhor dos protestos no Bahrein e ganhou diversos prêmios por um documentário a respeito do conflito.

Com a fundação da Al-Jazeera America, a emissora terá um grande desafio. Será preciso manter o que é bom (as “notícias de verdade”, segundo as palavras de Hillary Clinton), adaptar a produção ao noticiário doméstico, muito mais atrativo para o público norte-americano, e atenuar posições anti-Israel e anti-EUA, que dificilmente serão bem aceitas pelo público local. Ao se reiventar, a Al-Jazeera tem potencial para provocar mudanças importantes no jornalismo e na opinião pública dos Estados Unidos. Mas a emissora corre também o risco de, uma vez nos EUA, se tornar mais do mesmo.

Artigo publicado originalmente no site da revista CartaCapital

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