Os horrores do Exército do Egito

Trechos de um relatório elaborado para investigar abusos cometidos durante o levante contra Hosni Mubarak e depois dele mostram que o Exército do Egito, tido por muitos como “parceiro” da revolução, cometeu uma série de abusos contra a população que deveria defender.

Duas reportagens do jornal britânico The Guardian revelaram as atrocidades. A primeira, de 10 de abril, se concentra num capítulo do documento cujo foco é a atuação dos militares entre 28 de janeiro de 2011, quando foi chamado a intervir pela primeira vez, e 10 de fevereiro, primeira vez em que se colocou ao lado dos manifestantes (Mubarak caiu no dia seguinte).

De acordo com o Guardian, neste período o Exército do Egito prendeu ilegalmente, sequestrou, torturou, matou e enterrou em valas comuns diversos civis egípcios. O número de desaparecidos não é conhecido. O relatório confirma apenas 68 deles, mas podem ser mais de mil pessoas.

Numa segunda reportagem, de 11 de abril, o foco é o comportamento do Exército durante os confrontos, em maio de 2012, no distrito de Abbassiya, onde fica a sede do Ministério da Defesa. Segundo o relatório, diz o Guardian, os manifestantes que protestavam contra a ditadura militar instalada após a queda de Mubarak foram xingados e espancados por enfermeiros, médicos e militares dentro dos hospitais em que deveriam receber cuidados após os confrontos. O relatório aponta ainda que havia um conluio entre as forças de segurança egípcias, os militares e criminosos (thugs) contratados para se infiltrar entre os manifestantes e iniciar o quebra-quebra que justifica a repressão, prática comum no Oriente Médio.

Governo e oposição temem o Exército

As revelações causaram escândalo, mas é custoso acreditar que haverá investigação.

Morsi e militares egípcios em evento na última quinta-feira 11. Foto: Reprodução de TV, via Al-Ahram
Morsi e militares egípcios em evento na última quinta-feira 11. Foto: Reprodução de TV, via Al-Ahram

O comitê que elaborou o relatório foi nomeado pelo presidente do Egito, Mohamed Morsi, quando este se via pressionado a agir contra os abusos cometidos pelas forças de segurança. Diante das últimas revelações, o governo minimizou o relatório. Um porta-voz disse que Morsi não leu o documento, enquanto o próprio presidente apareceu publicamente ao lado dos militares, defendendo sua reputação. Em seguida, Morsi anunciou a promoção de uma série de oficiais, sinal claro da sintonia entre as duas partes.

Ainda que Morsi e a Irmandade Muçulmana tenham vontade de investigar esses abusos (o que não é certo), sabem que tal avanço significaria uma enorme instabilidade no Egito. Isso comprometeria o governo e poderia, em último caso, retirar da Irmandade o poder conquistado nos últimos meses. Da mesma forma, a oposição egípcia não vai atacar os militares. O Exército é visto pela oposição como a única força capaz de destituir Morsi e a Irmandade (por meio de um golpe) numa eventual crise política.

Por que investigar os militares traria instabilidade ao Egito?

Desde o início do levante contra Mubarak, ficou claro que o Exército têm um único interesse no Egito: manter os privilégios políticos e econômicos dos quais desfruta.

Hoje não há no Egito qualquer supervisão do Legislativo ou do Executivo sobre o orçamento e a alocação dos armamentos militares. Basicamente, o Exército é um agente livre dentro do Estado e exerce grande influência na política externa do país, em especial quanto a assuntos como Israel e a Faixa de Gaza.

Ao mesmo tempo, os militares detêm um poder econômico colossal. Sua entrada na economia é anterior ao regime Mubarak. Em 1979, com Anwar Sadat no poder, os militares passaram a administrar “projetos de serviço nacional” (Zahid, 2012). Nos anos 1990, já com Mubarak, ampliaram sua influência por meio de grandes obras de infraestrutura (Zahid, 2012).

Para proteger esses interesses, os militares dançam conforme a música. Apoiaram Sadat e mantiveram Mubarak no poder enquanto foi possível. Quando a instabilidade foi grande demais (em janeiro-fevereiro de 2011), se livraram do ditador e montaram um regime militar de transição. Com a vitória de Morsi nas eleições, o acordo com o Executivo se manteve o mesmo, ainda que desta vez o líder tenha sido eleito, e não escolhido.

As Forças Armadas são uma enorme sombra sobre o futuro do Egito, capaz de enquadrar um governo democraticamente eleito e também a oposição. Na Turquia, levou décadas para a relação de poder entre os militares golpistas e ditadores e os governos civis passar por uma modificação. No caso do Egito, não se deve esperar menos tempo que isso.

*ZAHID, Mohammed. The Muslim Brotherhood and Egypt’s Succession Crisis. Londres: I.B. Tauris, 2012

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