Por meio do Jabhat al-Nusra, a Al-Qaeda chegou à Síria

Imagem de militantes do Jabhat al-Nusra divulgadas pela Press TV, do Irã
Imagem de militantes do Jabhat al-Nusra divulgadas pela Press TV, do Irã

O cenário aterrador da guerra civil na Síria foi agravado neste mês de abril, com o surgimento do Estado Islâmico do Iraque e da Síria. Este grupo, filiado à Al-Qaeda, é uma fusão entre o braço iraquiano da rede terrorista (o Estado Islâmico do Iraque) e o Jabhat al-Nusra, a Frente de Defesa do Povo Sírio.

O Jabhat al-Nusra se tornou público em janeiro de 2012, como mais uma parte do Exército Livre da Síria (FSA na sigla em inglês), um amontoado de grupos seculares e jihadistas cujo único motivo comum é derrubar o regime de Bashar al-Assad. Agora, o Al-Nusra surge como um ator de extrema importância, capaz de desestabilizar ainda mais a Síria, e todo o Oriente Médio.

O Jabhat al-Nusra tem se notabilizado pelas habilidades militares e pelos equipamentos sofisticados de que dispõe, muitas vezes superiores aos das outras brigadas do FSA. Essas características são atribuídas ao fato de o grupo ter financiamento externo e possuir inúmeros jihadistas estrangeiros em suas fileiras, muitos com experiência em outros fronts, como o Iraque e o Afeganistão.

Militarmente, o Jabhat al-Nusra levou ao conflito sírio uma característica nova: os atentados. Dos vários ataques deste tipo realizados contra as forças de Assad, muitos foram organizados por esta facção. 

As-Nusra cria “governo” em áreas rebeldes

O uso deste tipo de artifício fez o governo dos Estados Unidos declarar o Jabhat al-Nusra um grupo terrorista, mas dentro da Síria ele desfruta de certa popularidade. Como contou em dezembro o especialista em terrorismo Aaron Y. Zelin, na Foreign Policy, o Jabhat al-Nusra parece ter aprendido com os erros da Al-Qaeda no Iraque. “Não atacou civis aleatoriamente, nem mostrou completo desrespeito pela vida humana ao publicar vídeos de decapitações de seus inimigos”.

Em janeiro, a BBC mostrou que o grupo possui fama de “disciplinado e honesto” e tem ajudado a colocar ordem no caos das regiões da Síria controladas pelo rebeldes. Há um “tribunal da sharia” que resolve diversos tipos de disputa, incluindo aquelas que a burocracia estatal deveria cuidar.

Soma-se a isso o trabalho de infraestrutura feito pelo grupo. A repórter Jenan Moussa, do canal Al-Aan (Emirados Árabes Unidos), contou em 7 de abril que, em Alepo, o Jabhat al-Nusra resolveu os problemas de falta de pão e transporte e está providenciando a limpeza das ruas da cidade.

Imagem mostra bombardeio na cidade síria de Homs, em maio de 2012. Foto: David Manyua / UN Photo
Imagem mostra bombardeio na cidade síria de Homs, em maio de 2012. Foto: David Manyua / UN Photo

Impactos da Al-Qaeda na Síria

A presença oficial da Al-Qaeda na Síria é a concretização do que, no início do conflito, eram teorias da conspiração. Quando havia apenas protestos pacíficos contra Assad, o ditador já dizia que todos seus opositores eram terroristas, numa forma de tentar deslegitimar a oposição.

Agora, é válido questionar o que vai ocorrer no futuro. A ideologia violenta e ultrarradical da Al-Qaeda está sendo útil contra Assad, mas em seguida se voltará contra quem?

Hoje em dia, já há conflitos entre o Jabhat al-Nusra e outros militantes do Exército Livre da Síria. É particularmente irritante para o FSA o fato de o grupo ter a participação de inúmeros estrangeiros e ter prestado juramento de fidelidade a uma entidade multinacional. É possível supor com grande segurança que a sociedade síria, terreno pouco fértil para o extremismo, não vai tolerar viver sob as regras draconianas preconizadas pela Al-Qaeda, nem mesmo os que hoje se beneficiam da organização do Jabhat al-Nusra.

O apelo da população será um fator legitimador para uma futura intervenção estrangeira. Ela pode ocorrer antes, mas será inevitável quando Assad for derrubado, desfecho mais provável do conflito, ainda que possa levar anos para se concretizar. Quando o regime estiver fora do poder em Damasco, inevitavelmente os Estados Unidos, as potências europeias e seus aliados sunitas no Oriente Médio, como a Jordânia e a Turquia, não vão permitir que a Síria se torne o embrião de um califado islâmico. Será instalado, assim, um governo minimamente aliado a este eixo.

Diante disso, o Jabhat al-Nusra será sempre um fator desestabilizador para qualquer novo governo, da mesma forma como ocorre hoje no Iraque. Não será, no entanto, uma situação que os governos poderão alegar ser surpreendente.

Em agosto de 2012, entrevistei o médico George Jabboure Netto, membro da oposição a Assad. Nascido no Brasil, Netto se formou em medicina na Universidade de Damasco, completou a formação nos Estados Unidos e há 25 anos está no país, onde é professor de Oncologia na Universidade Johns Hopkins. Quando questionado sobre o crescimento do radicalismo e do sectarismo na Síria, ele resumiu a situação com duas frases. “Quanto mais cedo o Ocidente nos apoiar para acelerar esta revolução, melhor será. Quanto mais tempo durar o conflito e quanto mais se deteriorar a situação humanitária, maior a chance de o radicalismo e o caos prevalecerem”.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s