A Irmandade Muçulmana não representa o Egito

Essam El-Erian, vice-presidente do Partido Liberdade e Justiça, o braço político da Irmandade. Foto: Divulgação
Essam El-Erian, vice-presidente do Partido Liberdade e Justiça, o braço político da Irmandade. Foto: Divulgação

Gilmar Siqueira, em seu blog, respondeu o texto que escrevi aqui recentemente, no qual rebatia algumas assertivas suas a respeito da Irmandade Muçulmana. Em seu novo texto, Siqueira volta a mostrar ingenuidade e desconhecimento sobre a Irmandade Muçulmana e a sociedade egípcia. Este problema transparece no título de seu texto. “Se não é a Irmandade, quem então persegue os coptas?” 

Como escrevi no primeiro texto, a Irmandade não comanda a sociedade egípcia, nem do ponto de vista religioso, nem do político-social.

Em termos políticos, a Irmandade Muçulmana é hoje muito bem estruturada e influente, mas está longe de ser voz dominante. Sua votação parlamentar (cerca de 50% em 2011/2012) é resultado de uma combinação de fatores que não cabem neste texto, mas lembremos que Mohamed Morsi, o atual presidente egípcio, teve menos de 25% dos votos no primeiro turno da eleição presidencial. Um ex-aliado de Mubarak teve 23%, um esquerdista teve 20%, um ex-irmão muçulmano moderado teve 17% e um candidato secular teve 11% dos votos. São números que revelam opiniões divergentes daquelas defendidas pelos irmãos muçulmanos.

Em termos religiosos, o Egito é dominado por sunitas, mas há uma imensidão de nuances em seus pensamentos e comportamentos que escapa à compreensão de Siqueira. A Irmandade Muçulmana é um grupo sunita e fundamentalista, que ao longo das últimas décadas, especialmente de 1984 para cá, moderou muitas de suas posições, como mostram algumas centenas de reportagens, livros e estudos de instituições como Brookings, Carnegie, entre outras. Isso não significa que a Irmandade Muçulmana é um grupo moderado pelos padrões ocidentais, ou mesmo o mais moderado do Egito.

Em termos de moderação, destaca-se no Egito a mesquita de Al-Azhar, a escola de pensamento sunita mais respeitada do mundo. Hoje muito influenciada por sufistas (sunitas de uma matriz espiritual/mística), Al-Azhar é fundamental na estabilidade social do Egito e nas relações com os cristãos coptas.

Muito mais radicais que a Irmandade são os ultraconservadores salafistas. Antes do Despertar Árabe, os salafistas rejeitavam a política, mas após a abertura provocada pela queda de Mubarak se organizaram em partidos e, o mais forte deles, o Al-Nour, conquistou quase um quarto das cadeiras em jogo. O movimento salafista também não é um monólito. Possui diversas divisões dentro de si, inclusive políticas. Uma dessas divisões recentemente enfraqueceu o próprio Al-Nour. É verdade que alguns salafistas são violentos, mas a maioria, por óbvio, não o é. Um exemplo é o grupo salafista Salafyo Costa, que atua para criar pontes entre muçulmanos e cristãos egípicios.

Repetindo para não deixar dúvidas: diversos dos problemas do Egito ocorrem independentemente do que a Irmandade Muçulmana faz ou deixa de fazer. Como escreveu Ziad Akl no Egypt Independent recentemente, a sociedade egípcia está cada vez mais radicalizada e preconceituosa. A Irmandade Muçulmana tem uma parte considerável da culpa pelos eventos dos últimos dois anos, como têm diversos outros atores políticos e sociais do Egito. O preconceito contra os coptas, entretanto, antecede em muito o Despertar.

O problema do texto de Siqueira é comum em análises rasas. Como é difícil ver a imensa zona cinza (micro-descrita nos parágrafos acima), cria-se um retrato maniqueísta no qual os muçulmanos são “maus” e os coptas são “bons”. Essa visão de mundo, por preconceituosa e extremista, tem como traço intrínseco a ela a rejeição da possibilidade de moderação de grupos fundamentalistas. É uma visão anti-histórica.

Por exemplo. Há 20 anos, o grupo político dos atuais governantes da Turquia, o país muçulmano mais democrático do Oriente Médio, rejeitava a democracia. Até o fim dos anos 1990, o Al-Jama‘a al-Islamiya (Grupo Islâmico) usava a violência política para tentar provocar mudanças no Egito. Hoje, fez uma releitura dos mesmos conceitos islâmicos que justificavam o terrorismo e passou a usá-los para defender ativismo social e político. Da mesma forma, a Irmandade Muçulmana, que outrora patrocinava a violência, participa de eleições parlamentares seguidas desde 1984. Por que o grupo não pode evoluir para ajudar o Egito a ter um Estado civil e democrático?

De fato, as dificuldades são enormes, mas é preciso haver espaço para que as mudanças ocorram. Se levada a cabo por governos, a visão de mundo de Siqueira, que se compara à de extremistas como Luiz Felipe Pondé, tem como resultado o sufocamento do diálogo público por meio do qual mudanças como as citadas acima ocorrem. A Irmandade Muçulmana pode ou não se moderar, e os resultados deste processo é que precisam ser levados em conta para analisá-la. Não os preconceitos motivados pela ignorância de uma ou outra pessoa.

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