TV estatal do Egito transmite reunião sigilosa sobre a Etiópia

A reunião sigilosa, que acabou transmitida ao vivo. Foto: Divulgação / Presidência do Egito
A reunião sigilosa, que acabou transmitida ao vivo. Foto: Divulgação / Presidência do Egito

Na segunda-feira 3, o presidente do Egito, Mohamed Morsi, recebeu uma série de políticos para debater uma questão preocupante para o país, a construção da Represa Renascença, pelo governo da Etiópia. O projeto pode afetar gravemente o rio Nilo, prejudicando a agricultura e a pesca egípcias, o que agravaria ainda mais a condição já caótica da economia do Egito. Os egípcios, e o governo da Etiópia, não precisarão esperar um grande vazamento como o do WikiLeaks para ter acesso às informações sigilosas debatidas na reunião. Sem os participantes saberem, o evento foi transmitido ao vivo

As ideias debatidas pela cúpula egípcia são chocantes, como conta o jornal Al-Ahram. Ayman Nour, do partido Ghad El-Thawra, foi quem passou menos vergonha. Ainda assim, afirmou que a posição do Sudão sobre a represa é “nojenta” e sugeriu a ampliação dos rumores a respeito de um ataque aéreo do Egito, pois isso poderia ter “resultados no caminho diplomático”.

Outros políticos foram além sugerindo abertamente que o Egito desestabilizasse a Etiópia. Younis Makhioun, do partido salafista Al-Nour, disse que um ataque deveria ser a última opção. Antes, afirmou ele, o Egito poderia apoiar os rebeldes etíopes e usá-los como “moeda de troca” com o governo de Adis Abeba. A “cartada final”, disse Makhioun, seria usar o “aparato de inteligência para destruir a represa”.

Mohamed Anwar El-Sadat, do liberal Partido Reforma e Desenvolvimento, seguiu na mesma linha de apoio aos rebeldes. “A Etiópia [consiste] de múltiplas tribos, e vossa excelência sabe que todos na África podem ser subornados“.

Para completar a tragicomédia, Magdi Hussein, líder do islamista Partido Novo Trabalhismo, pediu aos participantes da reunião que “mantivessem o sigilo” a respeito do que foi debatido na reunião.

O Egito e a África

Tão chocante quanto as declarações é o amadorismo do governo egípcio. Pakinam El-Sharqawy, uma auxiliar de Morsi, pediu desculpas por não ter avisado aos participantes sobre a “mudança de última hora” que fez a reunião ser transmitida ao vivo.

A descoberta da culpada não poupou o governo de críticas da oposição e de jornalistas. Chamou a atenção de todos como um governo de um país como o Egito foi capaz de cometer uma irresponsabilidade deste tamanho, ainda mais em se tratando de um tema tão sensível, que envolve a segurança nacional.

O episódio é mais um baque para Morsi e seu partido, o Liberdade e Justiça (braço da Irmandade Muçulmana), cuja capacidade de administrar o Egito está em dúvida desde a eleição, em junho passado, e vem sendo questionada cada vez mais.

É, também, um golpe na tentativa de Morsi de reforçar o caráter africano do Egito, rompendo com as características de desprezo pela África e isolamento de seu antecessor, o ditador Hosni Mubarak. A começar pela Etiópia, o Egito vai ter de remendar as relações partindo não apenas do isolamento, mas da hostilidade. Não vai ser nada fácil.

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