Na Síria, a única certeza é a ampliação da tragédia

Uma conferência internacional programada para acontecer ainda neste mês em Genebra, na Suíça, pode colocar fim ao conflito de dois anos na Síria. A possibilidade de isso ocorrer ainda é pequena. Não porque há dúvidas até mesmo sobre quem deve ser convidado para a reunião, mas porque não há interesse genuíno em encerrar o conflito. A Síria vale muito para todos os envolvidos e nenhum deles parece minimamente inclinado a ceder para cessar uma guerra civil que já deixou ao menos 80 mil mortos e 1,6 milhão de refugiados.

A tragédia que afeta a Síria tem três dimensões diferentes. A mais ampla delas é uma clássica batalha por hegemonia no Oriente Médio entre a Rússia e as potências ocidentais (EUA, França e Reino Unido). É um confronto com características semelhantes às da Guerra Fria em meio à era da globalização.

O duelo ficou escancarado na semana passada. Em Bruxelas, após 13 horas de negociação, os governos da França e do Reino Unido conseguiram dobrar a resistência de países como Áustria, República Tcheca e Suécia e acabaram com o embargo de armas da União Europeia à Síria. A intenção é poder armar os opositores de Bashar al-Assad e, em último caso, abrir caminho para uma intervenção militar.

Na quarta-feira 5, Laurent Fabius, o chanceler francês, acusou o regime sírio de usar gás sarin contra a população civil. Na semana anterior, o mesmo Fabius prometera medidas severas caso houvesse provas de armas químicas. O termo “severa”, segundo Fabius, significa a última instância antes da intervenção militar.

A Rússia respondeu de forma pronta a movimentação europeia. Moscou prometeu enviar 300 mísseis S-300 para Assad, como forma de conter os ímpetos de quem tem “cabeça quente”. Em entrevista levada ao ar por um canal libanês no fim de maio, Assad indicou que alguns dos mísseis já estariam em território sírio.

O anúncio da chegada dos mísseis colocou Israel em alerta. No início de maio, o país realizou um ataque à Síria para destruir estoques de mísseis iranianos Fateh-110. Agora, está pronto para agir de novo, pois os mísseis S-300 são também considerados uma ameaça, pois têm alcance para atingir Tel Aviv. Moshe Yaalon, o ministro da Defesa, disse que Israel “saberá o que fazer”. O conselheiro de Segurança Nacional Yaakov Amidror foi mais claro. Israel não vai permitir que os mísseis se “tornem operacionais”.

A ação de Israel pode forçar os Estados Unidos a entrarem de vez no conflito. A administração Obama, por enquanto, está reticente, pois uma intervenção teria um grande custo político e econômico. Ainda assim, há indicações crescentes de que ao menos uma zona de exclusão aérea pode ser montada pelos Estados Unidos. Na quarta-feira 5, a Jordânia, vizinha da Síria, confirmou que vai abrigar caças F-16 norte-americanos e baterias de mísseis Patriot.

Bloco xiita x bloco sunita A segunda dimensão do conflito é particularmente problemática pois se dá ao redor de linhas sectárias entre xiitas e sunitas. O regime Assad, majoritariamente alauíta (um vertente do islã próxima ao xiismo), conta com o apoio do Irã e do grupo libanês Hezbollah, ambos xiitas. Para os dois, manter Assad no poder é uma questão estratégica. Nos últimos anos, Damasco foi fundamental para o Irã e o Hezbollah sustentarem o que consideram ser a “resistência” contra Israel e os Estados Unidos no Oriente Médio. No início do conflito, este eixo perdeu o apoio do Hamas, grupo palestino sunita que passou para a órbita de influência do Egito e do Catar (sunitas), e não pode suportar uma nova perda.  Por isso, vão continuar mobilizados em defesa do regime Assad. Na quarta-feira 5, a milícia libanesa provou seu valor ao retomar a cidade de Qusayr, há meses disputada com os opositores de Assad.

Em contraposição ao bloco alauíta/xiita estão os países sunitas, que agem em certa coordenação com Estados Unidos, França e Reino Unido. Arábia Saudita e Catar comandam o apoio aos opositores sírios, o que ajuda a explicar a proeminência do Jabhat al-Nusra entre os rebeldes. Este grupo é hoje uma das principais forças militares contra Assad e, no fim de abril, jurou aliança à Al-Qaeda. O grupo terrorista defende uma ideologia um pouco mais radical do que a propagada por Arábia Saudita e Catar. Também tem papel importante no fortalecimento dos rebeldes a Turquia, que não é fundamentalista como os dois países do Golfo, mas é também sunita e vê na queda de Assad uma porta para expandir sua influência na região.

A dimensão sectária do conflito pode ter consequências duradouras e trágicas para o Oriente Médio. Países com populações heterogêneas, como o Iraque e o Líbano, já começam a experimentar grandes instabilidades. No Iraque, há em curso uma onda de violência contra as populações xiitas que, apenas em maio, matou mais de mil pessoas. Uma reação de milícias xiitas poderia jogar o Iraque novamente na guerra fratricida ocorrida durante a ocupação dos Estados Unidos.

No Líbano, a situação também é grave. A Guerra Civil (1975-1990) que envolveu, a grosso modo, sunitas, xiitas e cristãos nunca foi bem resolvida, tornando um país um barril de pólvora. A atuação do Hezbollah, e as represálias ao grupo por parte dos rebeldes sírios, têm acirrado os ânimos no país, provocando temores de que uma nova guerra civil possa ocorrer. Algumas cidades no sul do Líbano, reduto do Hezbollah, têm sido atingidas sistematicamente por foguetes lançados pelos rebeldes sírios. Na quarta-feira, Salam Idriss, comandante das forças opositoras sírias, afirmou que os opositores de Assad estão prontos para “mover a batalha para o Líbano” caso o governo local não contenha o Hezbollah. O empecilho para isso não é pequeno: militarmente, o Hezbollah é superior ao Exército libanês.

Completam o quadro da tragédia síria as divisões entre os grupos que combatem Assad. No improvável caso de o conflito continuar circunscrito ao território sírio, é quase certo que haverá confrontos entre os rebeldes quando, e se, Assad for derrubado. Não são pequenas as diferenças ideológicas entre o Exército Livre da Síria (de Idriss) e o Jabhat al-Nusra, ainda que atualmente eles estejam realizando diversas operações em conjunto. Uma vez findado o regime Assad, as forças de Idriss vão tentar fazer da Síria mais um integrante do conjunto sunita alinhado aos Estados Unidos, enquanto a frente Al-Nusra buscará transformar a Síria numa plataforma para a jihad global da Al-Qaeda.

A divisão da crise Síria em três dimensões diferentes e exposta aqui é meramente didática. No mundo real, os três conflitos estão entrelaçados. Um avanço em um deles provoca repercussões nos outros dois e, a depender da importância do fato, pode modificar alianças e realinhar interesses. Por tudo isso, e pela falta de vontade de todas as partes em cessar as hostilidades, o conflito é tão complicado e deve ter consequências ainda mais trágicas que as registradas até agora.

Texto publicado originalmente no site da revista CartaCapital

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s