Em jogo, uma vaga na Copa e as eleições no Irã

Atualização: O Irã venceu o Líbano por 4 x 0 e, na última rodada, pode empatar com a Coreia do Sul desde que o Uzbequistão não goleie o Catar. Se o jogo foi usado politicamente, saberemos nos próximos dias.

Torcedores do Irã durante amistoso contra a Alemanha no Azadi, em 2004. Foto: Amirreza / WIkimedia Commons
Torcedores do Irã durante amistoso contra a Alemanha no Azadi, em 2004. Foto: Amirreza / WIkimedia Commons

Nesta terça-feira, a seleção do Irã recebe o Líbano no estádio Azadi, em Teerã, para um jogo decisivo das eliminatórias da Copa do Mundo de 2014. Se vencer, o Irã mantém vivas as esperanças de disputar o mundial do Brasil, o que será definido apenas no dia 18, em partida diante da Coreia do Sul, em Ulsan.

O jogo desta semana envolve não apenas o esporte, mas, como costuma acontecer no país, a política. Na sexta-feira 14, os iranianos vão às urnas eleger o sucessor do presidente Mahmoud Ahmadinejad, num pleito que, inevitavelmente, colocará no poder um dos candidatos apoiados por Ali Khamenei, o líder supremo do Irã.

O grande temor do regime nesta semana é a repetição de evento ocorrido em 2009, quando o Team Melli (a seleção nacional) se tornou símbolo da oposição. Em junho daquele ano, em jogo diante da Coreia do Sul pelas eliminatórias da Copa de 2010, seis jogadores iranianos entraram em campo usando pulseiras verdes, um claro ato de solidariedade com o Movimento Verde, criado para protestar contra as irregularidades na reeleição de Ahmadinejad.

O Movimento Verde está politicamente morto, diante da repressão que sofreu pós-2009. Suas ideias, no entanto, continuam existindo. Como conta Bijan Khajehpour no site Al-Monitor, há rumores de que torcedores poderiam entoar nesta terça o cântico “Esqueçam Gaza e o Líbano e prestem atenção ao Irã“, um dos usados pelos verdes cinco anos atrás. Ainda segundo Khajehpour, alguns dos jogadores da seleção visitaram Hassan Khomeini, neto do aiatolá Ruhollah Khomeini (líder da Revolução Iraniana de 1979) e hoje um apoiador dos reformistas – corrente política dissidente do governo iraniano, mas relativamente aceita como oposição pelo regime.

O medo que o regime iraniano tem do futebol deriva do medo que sente de sua própria população. O povo iraniano é fanático pelo esporte, introduzido no país pela monarquia Pahlavi nos anos 1920 e capaz de abalar o equilíbrio de conservadorismo imposto pelos aiatolás. Conta Holly Dagres que, após a classificação para a Copa do Mundo de 1998, muitos torcedores, eufóricos, cometeram quebraram tabus: saíram bêbados às ruas, tocaram músicas banidas e, no caso das mulheres, retiraram os véus. Algumas delas chegaram a entrar no estádio Azadi durante o jogo, o que é proibido no Irã até hoje. Tudo isso teria ocorrido sob os olhares da “polícia moral” e com a participação de integrantes da Guarda Revolucionária, responsável por manter o regime de pé.

Em cabo diplomático dos Estados Unidos de 2009, revelado pelo WikiLeaks, diplomatas norte-americanos afirmam que, “como resultado da enorme base de fãs, o futebol se tornou altamente politizado no Irã” e o governo “está bem ciente do potencial de agitação doméstica que pode ocorrer em caso de um derrota – ou mesmo vitória – do Team Melli”.

Como solução para os “perigos” do futebol, o regime iraniano tem tentado cooptar o esporte. Conta também Bijan Khajehpour que, nos últimos anos, a Guarda Revolucionária tomou o controle de muitos clubes de futebol, como o Fajr e o Abu Muslem, e passou a compor a administração de alguns outros, como o Persepolis e o Tractorsazi, dois dos três times de maior torcida no Irã (o outro é o Esteghlal). A intenção é clara: conter os impactos do futebol e obter benefício político a partir da relação com os clubes.

Ao controlar o futebol, os aiatolás tentam conter a onda sísmica que tanto temem: aquela que fará os iranianos questionarem de forma aberta a maior contradição do país. Construído em contraposição à ditadura Pahlavi, o Irã revolucionário prometia liberdades e democracia. Em vez disso, sobressaiu uma outra característica que procurava distanciar o novo Irã do país que fora sob os Pahlavi: o anti-modernismo de cunho religioso, que para sobreviver precisa manter a população sob rígido controle, minando assim a democracia e a promessa de liberdade. O futebol, como muitos países já observaram, pode ser o estopim de manifestações sociais difíceis de controlar. Talvez não seja à toa que o nome persa do estádio de Teerã, Azadi, signifique liberdade.

Post publicado originalmente no Esporte Fino

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