A revolução do Egito vai ser reiniciada?

Imagem: DonkeyHotey / Flickr
Imagem: DonkeyHotey / Flickr

Menos de 24 horas depois de a população egípcia realizar manifestações gigantescas contra o governo do presidente Mohamed Morsi, o Exército do Egito indicou nesta segunda-feira 1º que pode retomar o poder na quarta-feira 3. Será o fim, ao menos momentâneo, do primeiro experimento democrático da história do Egito. A dúvida é se os egípcios querem, e se vão conseguir, reiniciá-lo.

O canhestro aviso de um golpe militar veio por meio de um comunicado publicado pelo Conselho Supremo das Forças Armadas do Egito (Scaf, na sigla em inglês) em sua página oficial no Facebook (em árabe e numa tradução não oficial para o inglês). Os militares afirmaram não ter a intenção de se envolver com a política, mas deram 48 horas para o governo e a oposição chegarem a um acordo político para atender as demandas da população. Caso contrário, diz o comunicado, os militares vão lançar um “mapa do caminho político” para o país.

Ao lançar o ultimato desta segunda, o Scaf parece estar empurrando Morsi para fora do poder de forma intencional.

Em primeiro lugar, porque a única “demanda da população” é a renúncia de Morsi. Os protestos realizados no domingo 30 são fruto da campanha Tamarod (rebelde), cuja intenção era reunir assinaturas em uma petição para um impeachment de Morsi. O abaixo-assinado não tem qualquer força legal, mas foi encampado pela oposição, formada por secularistas, esquerdistas e liberais que em comum têm apenas a hostilidade à Irmandade Muçulmana, o poderoso grupo político-religioso do qual Morsi faz parte.

Em segundo lugar, porque pedir um acordo político para governo e oposição egípcios, ainda mais em 48 horas, é uma exigência irreal. Em grosso modo, as duas partes não concordam sobre que tipo de Estado o Egito deve ser: secular ou influenciado pela religião. A diferença, praticamente intransponível diante da intransigência comum aos dois lados, não será sanada em tão curto tempo, especialmente porque a oposição agora tem um incentivo a mais para não negociar: se conseguir manter a pressão sobre Morsi por mais 48 horas, ele estará fora do poder.

A Presidência do Egito reagiu ao ultimato em tom desafiador. Também pelo Facebook (em árabe), afirmou que o comunicado do Scaf “pode causar confusão” e prometeu não deixar que o país “regrida”. O governo se apega ao fato de Morsi ter sido eleito para bradar sua legitimidade. Não é suficiente para aplacar a oposição, no entanto.

O apego da Irmandade Muçulmana ao poder e sua pouca disposição de dialogar estão no cerne da atual crise política. No último ano, Morsi teve inúmeras oportunidades para fazer acenos à oposição, mas perdeu todas elas. Com essa postura, ajudou seus rivais políticos, também pouco afeitos à democracia, a se tornarem cada vez mais radicais.

A tragédia do Egito aparece em relatos vindos do Cairo após a divulgação do comunicado do Scaf. Muitos egípcios estão celebrando o ultimato e o rompimento de um processo democrático que prometia muito e não entregou nada. Após a queda de Mubarak, a violência, inclusive religiosa, aumentou, a economia está em frangalhos e a burocracia continua incompetente.

Se os militares realmente desejam ficar fora da política e querem apenas traçar um “mapa do caminho”, o Egito vai se deparar novamente com a questão que separa governo e oposição. Que tipo de estado o país deve ser?

Sem mecanismos democráticos para responder essa pergunta, e com grande parte da população celebrando a derrubada de um presidente eleito, o futuro do Egito continua cada vez mais sombrio, pois na próxima fase da revolução, talvez nem haja mais ímpeto para buscar a democracia.

*Uma versão deste texto foi publicada inicialmente no site da CartaCapital

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