A nova velha ditadura vai governar o Egito?

Manifestante exibe bandeira do Egito ensanguentada após confronto em frente ao quartel da Guarda Republicana, no Cairo, nesta segunda-feira 8
Manifestante exibe bandeira do Egito ensanguentada após confronto em frente ao quartel da Guarda Republicana, no Cairo, nesta segunda-feira 8

Menos de uma semana depois do golpe militar contra o ex-presidente Mohamed Morsi, a crise política no Egito se aprofundou. Se as Forças Armadas diziam em 3 de julho que a intenção ao tirar a Irmandade Muçulmana do poder era reiniciar a “democratização” do país, hoje está cada vez mais claro que os militares colocaram o país no rumo de uma nova ditadura, controlada pelos velhos ditadores: os próprios militares.

Esta segunda-feira 8 marcou o que parece ter sido o dia mais violento no Egito desde a derrubada do ditador Hosni Mubarak, em fevereiro de 2011. Pelo menos 53 pessoas morreram e centenas ficaram feridas em um confronto entre apoiadores de Morsi e os militares nas cercanias do quartel da Guarda Republicana, no Cairo, onde Morsi estaria detido.

Ainda não se sabe como o conflito teve início, mas inúmeras testemunhas relataram a jornalistas de veículos como o espanhol El País e o norte-americano The New York Times que os militares começaram o ataque quando os manifestantes faziam uma oração nas primeiras horas da manhã. Os militares sustentam que foram atacados pelos manifestantes.

Os números, oficiais, mostram que trata-se de um massacre. Dois militares foram mortos e 42 ficaram feridos, segundo um porta-voz das Forças Armadas. Entre os manifestantes pró-Morsi, há até aqui 51 mortos e 435 feridos de acordo com o Ministério da Saúde do Egito.

Processo político está paralisado

A tragédia no quartel da Guarda Nacional deve afetar a negociação política que prometia dar ao Egito um governo civil para liderar a nova transição. Após as notícias do massacre, o partido Al-Nour, principal representante dos ultraconservadores salafistas, segunda maior força política do Egito, abandonou as negociações. O grande imã da mesquita Al-Azhar, Ahmed El-Tayeb, importante figura religiosa que apoiou o golpe, ameaçou se afastar do processo político caso não sejam tomadas providências para “evitar uma guerra civil“.

A Frente de Salvação Nacional, liderada por Mohamed el-Baradei, e o movimento Tamarod (rebelde), que comandou as gigantescas manifestações contra Morsi, também pediram investigações. Esses dois atores políticos, ambos majoritariamente seculares, não devem abandonar o processo político. Apoiado pelo Tamarod, Baradei é o favorito para o posto de primeiro-ministro interino. Sua provável parceria com Adly Mansour, chefe da Suprema Corte empossado como presidente pelos militares, não deve ter facilidade para governar, uma vez que os ânimos seguem acirrados.

Dois Egitos

A derrubada de Morsi tornou mais hostil a disputa pela identidade do Egito. A grosso modo, o país está dividido entre os setores seculares e o islã político pregado pela Irmandade Muçulmana. O desastroso e pouco inclusivo governo de Morsi, que criou as condições para o golpe militar, não fez os irmãos muçulmanos aprenderem grandes lições. Muitos de seus líderes continuam com discursos inflamados, algumas vezes atribuindo a derrubada de Morsi aos cristãos coptas, minoria que forma cerca de 10% da população egípcia. Um clérigo copta foi assassinado na cidade de El Arish, no norte do país, no fim de semana. A Irmandade Muçulmana continua, ainda, lutando pela restituição de Morsi ao poder, uma reivindicação que as Forças Armadas jamais aceitarão e que tende a acirrar o caos.

Do outro lado, os setores seculares, mal-organizados politicamente, não conseguiram qualquer resultado expressivo nas votações realizadas no Egito desde a queda de Mubarak. Cada vez mais radicalizados, apostaram na força militar para derrubar seus rivais políticos. Ocorre que os militares parecem dedicados a tirar as possibilidades de a Irmandade Muçulmana voltar a participar do processo político no Egito.

Além de Morsi, outras lideranças do grupo e de seu partido, o Liberdade e Justiça (PLJ), continuam detidos. Fotos e vídeos das prisões de alguns deles foram divulgadas pelo Ministério do Interior, acrescentando uma dose de humilhação à indignação dos irmãos muçulmanos. Os canais de tevê favoráveis a Morsi foram tirados do ar e devem ser substituídos por outros também religiosos, porém mais moderados. A sede do PLJ, que fora atacada por manifestantes antes do golpe, foi lacrada.

As Forças Armadas do Egito parecem, assim, tentadas a realizar algo que os três ditadores do Egito não conseguiram: acabar com a Irmandade Muçulmana. É um erro estratégico grave, que produzirá apenas mais radicalização e violência. Os primeiros indícios disso vêm da região da Península do Sinai, área no norte do Egito onde a presença do Estado é frágil. Nos últimos dias, alguns ataques a interesses governamentais foram realizados, por grupos radicais parcialmente alinhados ideologicamente à Irmandade Muçulmana.

No último dia 3, as Forças Armadas do Egito derrubaram Morsi com o mesmo intuito que tiveram em 2011, quando afastaram Mubarak da presidência – estabilizar o país para garantir que seus enormes interesses econômicos não fossem ameaçados. A agenda oculta de perseguição à Irmandade, entretanto, incendiou o país. Ainda que consigam impor uma face civil ao novo governo, os militares continuarão ditando as regras, ao menos nos bastidores, e atuando com extrema violência. É um tipo de comportamento que tende a manter a divisão na sociedade, promovendo a criação de governos fracos, sejam eleitos ou impostos pela força, e a manutenção dos militares como o menos pior dos mediadores. Enquanto as forças políticas civis não se tornarem capazes de conviver e dialogar, a ditadura militar será o destino do Egito.

Foto: @Beltrew

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