A Síria se afunda na guerra, e o mundo segue imóvel

Há pouco mais de um mês, foram expostas aqui três dimensões do conflito na Síria – o duelo geopolítico entre Estados Unidos e Rússia; a batalha sectária nos contornos de xiitas e sunitas; e a disputa interna na oposição ao ditador Bashar al-Assad. Desde então, em todas essas frentes o conflito se agravou ou continuou como estava, mas está claro que é preciso acrescentar uma nova dimensão a ele: a dramática situação dos refugiados, capaz de tornar a questão síria uma guerra duradoura no Oriente Médio.

Nesta semana, a Organização das Nações Unidas classificou a situação na Síria como a pior crise humanitária desde o genocídio de Ruanda, em 1994, quando cerca de 800 mil pessoas foram assassinadas em pouco mais de três meses. Os dois anos e meio de conflito na Síria produziram, até aqui, 1,8 milhão de refugiados. O Líbano abriga 620 mil e é seguido por Jordânia (501 mil), Turquia (413 mil), Iraque (161 mil) e Egito (92 mil). A grande maioria dos refugiados depende de ajuda humanitária para sobreviver. Cerca de três quartos deles são mulheres e crianças e a hostilidade a essas populações nos países receptores só cresce.

Nesta quinta-feira, o secretário de Estado dos Estados Unidos, John Kerry, experimentou o drama dos refugiados. Ele visitou o campo de Zaatari (foto abaixo), na Jordânia, onde moram 105 mil pessoas, o que torna o local a quarta maior “cidade” do país. Por questões de segurança, Kerry ficou apenas na parte administrativa do campo. Lá, recebeu representantes dos refugiados, um encontro relatado pela agência Associated Press.

“Estamos implorando por uma zona de exclusão aérea”, disse Jamalat Abu al-Hariri, uma mulher que fugiu da cidade síria de Daara. “Senhor secretário, se a situação permanecer inalterada até o fim do Ramadã este campo vai ficar vazio, vamos voltar para a Síria e lutar com nossas facas”, disse outra mulher que não quis se identificar. “Você como integrante do governo dos EUA olha Israel com respeito”, disse. “Você não pode fazer o mesmo pelas crianças da Síria?”

Kerry respondeu dizendo que “muitas opções estão sobre a mesa”, mas que a decisão não é simples. O representante de Barack Obama, entretanto, reconheceu o drama. “Se eu estivesse no lugar deles eu estaria buscando ajuda onde pudesse achar”, afirmou. “Compartilho a frustração da difícil situação que enfrentam no dia a dia”.

Uma intervenção internacional está distante. Apesar de Bashar al-Assad não ter condições de retomar o controle sobre o país inteiro, sua posição tem ficado mais forte. Contribuem para isso as divisões internas da oposição. Na semana passada, o Emirado Islâmico do Iraque e do Levante, grupo afiliado à Al-Qaeda e que combate Assad, matou um militar de alta patente do Exército Livre da Síria, outro grupo opositor, mas majoritariamente secular. Nesta semana, um conflito entre esses jihadistas ligados a Al-Qaeda e curdos (uma minoria étnica) deixou pelo menos 29 mortos.

O acirramento do conflito e o desespero dos refugiados estão criando um campo fértil para uma desestabilização da região toda a longo prazo, com possibilidade crescente de atentados terroristas se tornarem regra. Nesta quinta-feira, Leila Zerrougui, representante especial da ONU para crianças e conflitos armados, alertou que a Síria e os outros países do Oriente Médio devem se preparar para “encarar uma geração de crianças que perderam sua infância, têm muito ódio e são analfabetas”. Além do 1,8 milhão de refugiados externos, há, segundo a ONU, 4,2 milhões de pessoas refugiadas dentro da Síria. Elas perderam suas casas, mas por enquanto permanecem no país. Muitas crianças não conseguem estudar e centenas de milhares estão enfrentando má nutrição, doenças, casamentos precoces e traumas severos por conta da guerra civil.

Um sinal preocupante da radicalização do conflito é a chegada, relatada por alguns órgãos de imprensa, do Taleban paquistanês ao território sírio. Como se sabe pela história recente do Paquistão e do Afeganistão, é um grupo que tem experiência em usar a pobreza e o desespero das populações para criar um exército de militantes radicais.

Em 2011, quando o conflito se acirrou, não houve uma intervenção estrangeira, entre outros motivos, porque muitos consideraram que ela poderia provocar uma guerra civil e um conflito sectário. Tudo isso ocorreu mesmo sem a intervenção militar. E o mundo continua imóvel.

Texto publicado originalmente na CartaCapital

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