Reza Aslan e a islamofobia da Fox News

Reza Aslan durante palestra nos EUA.  Divulgação / Roanoke College
Reza Aslan durante palestra nos EUA. Divulgação / Roanoke College

Um dos virais desta semana é o vídeo em que o escritor norte-americano Reza Aslan derruba a argumentação de Lauren Green, âncora da Fox News, durante entrevista sobre seu livro a respeito de Jesus Cristo (Zealot: The Life and Times of Jesus of Nazareth). Desde então, o livro de Aslan virou sucesso de vendas nos Estados Unidos e descobriu-se que ele é um tanto babaca no Twitter.

De qualquer forma, o aspecto mais importante do episódio são os traços claros de islamofobia existentes no comportamento da apresentadora da Fox News. Não é uma surpresa, afinal a emissora fala com um público altamente influenciado pela onda de preconceito contra muçulmanos existente nos Estados Unidos.

Cabe explicar este fenômeno. (Aqui, recorro a trechos de uma pequena pesquisa que fiz para este texto sobre o Lanterna Verde árabe no ano passado.)

O relatório Fear, Inc. publicado em agosto de 2011 pelo Centro para o Progresso Americano, um think tank de esquerda baseado em Washington, mostrou quão organizada é a campanha anti-árabe e anti-Islã nos Estados Unidos. Em 2001, após o 11 de Setembro, ficou claro o despreparo dos órgãos de segurança norte-americanos para lidar com o terror islâmico. Para compensar este problema, as autoridades desenvolveram uma eficiente rede de investigação contra esse tipo de terrorismo, e a mídia passou a dar ênfase a ele. Assim, diz o relatório, criou-se a falsa impressão de que o terror muçulmano é mais prevalente do que realmente é. Essas informações servem, prossegue o estudo, para abastecer e estimular uma rede de islamofobia que envolve organizações, blogueiros, militares, jornalistas e políticos cuja atuação acaba por ameaçar os conceitos de liberdade religiosa e respeito pela diversidade étnica nos Estados Unidos.

É neste ponto que entra a Fox News. No debate com Aslan, Lauren Green aplica a retórica do preconceito e pergunta diversas vezes ao autor por que um muçulmano está escrevendo sobre Jesus. A apresentadora não se dá por satisfeita e repete a pergunta mesmo após o escritor afirmar que pesquisa religiões há 20 anos e tem um doutorado na área, o que dá a ele a capacidade de analisar o Jesus Cristo histórico. Fica claro na entrevista que a apresentadora busca a tática mais básica do preconceituoso: deslegitimar o autor de um argumento em vez de tentar desconstruir suas ideias.

Esta campanha de islamofobia, diz o estudo do CAP, faz com que imigrantes ou cidadãos americanos de origem árabe ou muçulmanos sejam representados de forma distorcida e, em muitos casos, “demonizados” pelo restante da sociedade. O ódio e a ignorância são tão grandes que até mesmo quem não é árabe ou muçulmano vira vítima – o atentado contra um templo da religião sikh no Wisconsin, em agosto de 2012, é prova disso.

A realidade dos muçulmanos norte-americanos está muito distante do que os islamófobos pensam. No apêndice A deste estudo sobre muçulmanos pelo mundo, o Fórum Pew sobre Religião e Vida Pública faz uma comparação entre o que pensam os muçulmanos nos Estados Unidos em comparação com diversos públicos (americanos como um todo, cristãos americanos e muçulmanos pelo mundo). Vejamos alguns dos resultados:

– Pelo mundo, 95% dos muçulmanos dizem que todos ou quase todos seus amigos são muçulmanos. Nos EUA, 48% dos muçulmanos dizem isso;

– Pelo mundo, 72% dos muçulmanos dizem que ataques terroristas contra alvos civis nunca são justificados. Nos EUA, 81% dos muçulmanos dizem isso;

– 56% dos muçulmanos americanos dizem que várias religiões levam à vida eterna. O percentual total nos EUA (65%) e entre os cristãos americanos (64%) não são muito maiores;

– 63% dos muçulmanos americanos dizem que não há conflito entre ser devoto e levar uma vida moderna. Entre os cristãos americanos, são 64%;

– 59% dos muçulmanos nos EUA dizem que não há conflito entre ciência e religião. Na população americana, 37% dizem isso. Entre os cristãos americanos, 37%;

– 45% dos muçulmanos americanos acreditam na Teoria da Evolução, contra 46% dos cristãos nos EUA e 52% da população total.

Os números comprovam que os muçulmanos dos EUA estão mais próximos da população norte-americana como um todo do que dos muçulmanos em geral. Suas ideias são construídas, portanto, influenciadas pela liberdade, abertura política e progresso do país, e não pela rotina de autoritarismo e pobreza do Oriente Médio.

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