Ataque no Quênia mostra a força da Al-Qaeda

O ataque ao shopping center Westgate, em Nairóbi, capital do Quênia, é a maior das trágicas realizações do Al-Shabab, grupo militante da Somália, em sua curta história, que data de 2003. Em 2010, durante a Copa do Mundo da África do Sul, o grupo explodiu um restaurante em Uganda, outro país da África ocidental, mas aquele atentado nem de longe teve a publicidade da ofensiva contra Westgate. Desta vez, além de revelar que ainda está ativo, o Al-Shabab mostrou ao mundo quão distante está o fim da luta contra a ideologia da Al-Qaeda.

O ataque deste fim de semana, que matou ao menos 69 pessoas, pode ser entendido como um duplo recado. No contexto regional, o massacre é uma represália do Al-Shabab ao envolvimento do Quênia na Somália, que vem se intensificando nos últimos anos. Em 2006, a Etiópia invadiu a Somália para tirar do poder um grupo extremista (do qual o al-Shabab fazia parte). Realizado o objetivo, a ocupação etíope foi substituída por uma missão de estabilização da União Africana, autorizada pela ONU e com tropas de diversos países, entre eles o Quênia. Em 2011, o papel dos militares quenianos foi mais ativo. Com o apoio de Estados Unidos e França, o Quênia e a Etiópia invadiram o sul da Somália para acabar com o domínio territorial do Al-Shabab na região, uma ocupação que posteriormente também foi transferida para a UA.

No campo global, o ataque é uma prova da influência da Al-Qaeda. De acordo os depoimentos de testemunhas e as primeiras informações da investigação, o shopping Westgate, conhecido ponto de encontro de expatriados em Nairóbi, foi invadido por 10 ou 15 homens armados com fuzis e granadas. Ao iniciar a matança, eles teriam poupado os locais e os muçulmanos e direcionado o ataque aos estrangeiros. Após o ímpeto inicial, tomaram o shopping fazendo inúmeros reféns, uma ocupação que se mantém até esta segunda-feira 23. Não à toa, o script do ataque seguiu o que o chefe da Al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri, pregou em sua última mensagem pública, divulgada no início de setembro. Como lembrou Michelle Shephard no jornal canadense The Star, Zawahiri pedira a seus seguidores para atacarem ocidentais, pouparem os muçulmanos e fazerem reféns – estratégia capaz de gerar grande publicidade.

A aliança do Al-Shabab com a Al-Qaeda, ensaiada desde 2008, foi oficializada em 2012, quando seu líder, Ahmed Abdi Godane, um homem treinado no Afeganistão, prometeu lealdade a Zawahiri. À medida que perdia seu foco local e aderia à guerra global de Osama bin Laden, o Al-Shabab atraiu a atenção das grandes potências. Foi neste contexto que EUA e França ajudaram o Quênia e a Etiópia a desalojar Al-Shabab do sul da Somália. A intenção é a mesma da missão norte-americana no Afeganistão e dos ataques com aviões não-tripulados ao Paquistão e ao Iêmen – tirar da Al-Qaeda e de grupos aliados a ela a possibilidade de estabelecer uma base a partir da qual podem realizar ataques contra países ocidentais, como ocorreu nos EUA em 2001, na Espanha em 2004 e no Reino Unido em 2005.

A estratégia liderada pelos EUA é compreensível, porém bastante limitada. Dificilmente ela servirá para enfraquecer a ideologia da guerra global da Al-Qaeda. Na realidade, a depender de como a chamada “guerra ao terror” é travada, ela pode até mesmo fortalecer a rede terrorista. O presidente do Quênia, Uhuru Kenyatta, que perdeu um sobrinho no shopping Westgate, prometeu uma resposta “rápida e dolorosa”. De fato, é necessário punir os responsáveis pela atrocidade, mas uma nova ofensiva contra a Somália ou uma repressão contra os muçulmanos do Quênia (cerca 11% da população) só ampliaria as possibilidades de recrutamento por parte dos grupos extremistas. A ideologia da Al-Qaeda floresce em meio a problemas como repressão política, pobreza, desemprego, analfabetismo, sexismo sentimentos de insignificância cultural. Não há respostas militares para nenhuma dessas questões. Enquanto o mundo não perceber isso e atacar esses problemas, a Al-Qaeda continuará viva.

Texto publicado originalmente na CartaCapital

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