Perseguição política chega ao futebol egípcio

O lutador de kung fu Mohamed Youssef não é mais o único esportista perseguido no Egito por conta de suas posições políticas. Nesta semana, o Al-Ahly suspendeu e colocou à venda o atacante Ahmed Abdul Zaher, que no domingo 10 comemorou gol com um gesto que se tornou sinal de apoio à Irmandade Muçulmana e a Mohamed Morsi, o presidente deposto em julho por um golpe de Estado.

Zaher não foi poupado mesmo com a importância do gol marcado – o segundo do Al-Ahly contra o Orlando Pirates, que deu ao clube egípcio seu oitavo título continental. Não se sabe se a diretoria do Al-Ahly tomou a decisão após ser enquadrada por alguma autoridade ou se decidiu se distanciar do atleta para evitar futuros problemas. Seja como for, a situação demonstra a força da campanha do atual regime para evitar a proliferação de qualquer tipo de solidariedade específica aos irmãos muçulmanos. Vale notar que o primeiro gol do Al-Ahly foi marcado pelo veterano Mohammed Aboutrika, também apoiador da Irmandade, que durante as comemorações do título usou uma camiseta com o número 72, para lembrar as vítimas do massacre num estádio de futebol em Port Said. Ele foi repreendido, mas a punição não chegou perto da sofrida pelo colega.

O sinal feito por Zaher é a saudação de quatro dedos, conhecida como R4bia, alusão à praça em frente à mesquita Rabaa Al-Adawiya, no Cairo, onde centenas de simpatizantes da Irmandade foram assassinados dias depois do golpe. Rabaa, em árabe, significa quatro. O jogador chegou a pedir desculpas pelo gesto feito na comemoração e afirmou que pretendia homenagear todas os mortos, não apenas os islamistas. Não adiantou, especialmente porque após o jogo circulou uma foto na qual ele aparecia na ocupação da praça dando apoio aos irmãos muçulmanos que lá estavam.

O monumento na praça Rabaa Al-Adawiya, no Cairo. (Foto @_amroali / Twitter)
O monumento na praça Rabaa Al-Adawiya, no Cairo. (Foto @_amroali / Twitter)

A memória do massacre se tornou referência de apoio ao grupo islamista, um fato que incomoda o governo egípcio pois este está dedicado a tornar verdade a narrativa falaciosa de que a Irmandade Muçulmana é um grupo terrorista. Ao mesmo tempo, o governo tenta retratar a polícia e o Exército como heróis da nação. Por este motivo, na véspera dos três meses do massacre de Rabaa, um bizarro monumento representando a polícia e o Exército como mãos que protegem o povo egípcio foi erguido na praça – uma cínica homenagem aos assassinos e não às vítimas do massacre.

Não há dúvidas de que, no ano e três dias em que esteve no poder, a Irmandade Muçulmana fez um governo desastroso e autoritário. O golpe, entretanto, inaugurou um período ainda mais lamentável na história do Egito, marcado por intensa perseguição política, que vem corroendo o tecido social. O esporte é, como sempre, uma das vítimas.

Confira abaixo a comemoração de Zaher (a partir de 1min45):

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