O que não esperar da conferência de paz para a Síria

A partir desta quarta-feira 22, representantes de diversos países e entidades se reúnem em Montreaux, na Suíça, para discutir propostas que possam colocar fim à guerra civil Síria. O encontro é chamado de conferência de paz, mas dificilmente alguma coisa parecida com a paz surgirá da reunião. É possível apostar, entretanto, no que não vai ser decidido na Suíça.

É certo que a denúncia publicada pela CNN e pelo jornal The Guardian a respeito de um suposto novo crime de guerra cometido pelo regime de Bashar al-Assad não vai constar na minuta final do documento. Os dois veículos divulgaram detalhes de um relatório (leia a íntegra, em inglês – imagens fortes) bancado pelo governo do Catar (rival de Assad) e produzido por especialistas conceituados em direito internacional no qual foram analisadas 55 mil imagens de 11 mil prisioneiros de guerra que teriam sido torturados e submetidos à fome pelo regime. O horror das cenas, reminiscentes do Holocausto, não deve comover a comunidade internacional. Basta lembrar que as negociações entre Estados Unidos e Rússia foram retomadas após outro crime de guerra atribuído ao regime: o massacre por armas químicas ocorrido em Ghouta, subúrbio de Damasco.

Também não vai ser produzido na Suíça um acordo amplo de paz capaz de resolver a situação. Há ainda inúmeras diferenças entre os atores envolvidos, a começar por Estados Unidos e Rússia, engajados em uma disputa por influência na região. Mesmo se a questão entre os dois fosse resolvida, é preciso ter em conta que a Síria é, hoje, o principal campo de batalha entre Arábia Saudita e Irã, as duas potências regionais do Oriente Médio. O convite para a conferência feito ao Irã pela ONU, e sua posterior retirada nesta semana, revelam o tamanho da hostilidade entre os dois países. Isso sem contar o conflito local entre Assad e seus opositores e o confronto dentro da própria oposição, recheada de jihadistas estrangeiros.

Assad enviou uma delegação para a Suíça, mas também não se deve esperar sua desistência do conflito em nome da paz. O líder sírio está há três anos batalhando para permanecer no poder e não vai recuar agora, momento em que está em vantagem em diversas frentes, não conta com a pressão dos EUA e vê a oposição dividida.

O máximo que pode ser conseguido em Montreaux é um armistício. A trégua não seria realizada nem mesmo em todos os campos de batalha, mas caso a caso, conforme os atores envolvidos. Os EUA e seus aliados têm certa influência sobre parte da oposição e poderiam conseguir a suspensão das batalhas, da mesma forma que a Rússia pode convencer Assad a fazer o mesmo. Há diversos elementos na Síria, entretanto, sem disposição para dialogar ou aceitar uma trégua.

Por tudo isso, as expectativas para o encontro são baixas, se em conta estiver uma resolução definitiva para a situação. Uma trégua, entretanto, seria um alívio para o povo sírio, que sofre intensamente com a destruição, as mais de 100 mil mortes e os 2,4 milhões de refugiados provocados pela guerra civil. Não há perspectivas ótimas para a Síria, mas a trégua pode abrir espaço político para mais diálogo. Diante da aterradora situação do país, seria um avanço tímido, porém positivo.

Publicado originalmente em CartaCapital

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