Tahrir square

Sugestão de filme: The Square

the-square-posterÀ primeira vista, o documentário The Square* (A Praça), indicado ao Oscar na semana passada, parece ser uma obra a respeito dos últimos três anos no Egito. Foi um período no qual o país se livrou de um ditador, obrigou os militares a realizarem eleições, elegeu um religioso para presidente e derrubou-o após uma guinada autoritária. Este, entretanto, é apenas o pano de fundo usado pelo documentário para mostrar como um grupo muito específico de egípcios criou “uma cultura de revolução” no país. Por 1h45, os chamados revolucionários de 25 de janeiro e seu comportamento são glorificados, mas The Square falha ao não mostrar como, aos poucos, o idealismo deixou de ser parte da solução para integrar o rol de problemas do Egito.

O filme é resultado da atuação política da diretora. Criada nas cercanias da praça que inspirou o título do documentário, a Tahrir, no centro do Cairo, Jehane Noujaim fez carreira no exterior, mas tinha seus olhos voltados para seu país natal. Em 2007 dirigiu Egypt We are Watching You (Egito estamos de olho em você, em tradução livre) e, em 2011, quando tiveram início as manifestações contra Hosni Mubarak, voltou para o Cairo. Nas ocupações da Tahrir, que persistiram 18 dias, até o ditador ser afastado, Noujaim conheceu a equipe com a qual iria trabalhar e também os personagens do documentário.

O principal deles é Ahmed Hassan, ativista oriundo de um bairro operário do Cairo, que estudou dois anos de Jornalismo, mas não conseguiu emprego na área, um drama comum no Egito. Outra figura importante é o ator Khalid Abdalla (estrela de O Caçador de Pipas), que, assim como a diretora, volta do exterior ao Egito no início das manifestações.

Parte da aclamação do documentário no Ocidente (antes do Oscar, foi premiado no festival de Sundance) deriva do fato de Hassan e Abdalla serem tudo aquilo que o Ocidente gostaria que não só o Egito, como o Oriente Médio inteiro, fossem. Eles são ativistas seculares, modernos e engajados em uma luta incessante pela democracia. É curioso que, diante disso, o maior feito desta gente, iniciar uma revolta popular praticamente sem precedentes, que acabou com o regime de 30 anos de Mubarak, mereça um espaço tão diminuto em The Square. A pressa dos ativistas pela democracia, e a ânsia pela revolução, são tantas que o próprio documentário foi refeito por Noujaim. A versão indicada ao Oscar é bastante diferente da premiada em Sundance em janeiro de 2013. O novo corte inclui as manifestações populares contra o governo de Mohamed Morsi, irmão muçulmano eleito depois de duas ondas de protesto: a primeira contra Mubarak e a segunda contra a junta militar que substituiu o ditador.

O terceiro grande personagem do filme é menos a realidade e mais a projeção do que o Ocidente gostaria que fosse a Irmandade Muçulmana. Ao contrário de Morsi e outros líderes do movimento político-religioso, Magdy Ashour é solidário com os manifestantes seculares (sua firme amizade com Hassan e Abdalla é parte emocionante do filme), dialoga com os cristãos (como Pierre Sioufi, dono do apartamento na Tahrir onde se encontram), convive tranquilamente com mulheres seculares e condena veementemente o uso da violência. Tudo o que a Irmandade não fez no governo Morsi, criando as condições para sua derrubada e a instalação do atual governo interino, cada vez mais semelhante ao regime Mubarak.

Não há em The Square uma reflexão a respeito do papel dos revolucionários. Os certeiros conselhos e análises que o pai de Abdalla, ex-ativista, dá ao filho pela internet, caem em ouvidos moucos. A única autocrítica surge da voz de Ramy Essam, ativista e cantor. Após a eleição de Morsi, Essam lembra que a “praça” não conseguiu elaborar qualquer alternativa para o Egito e apenas disse “não a tudo”. Abdalla responde que “fazer política é diferente de fazer revolução” e que, na revolução, não há motivos para transigir.

A intransigência dos revolucionários, entretanto, nublou sua visão. Ao se apegarem ao ideal, perderam de vista o fato de que a democracia não é uma magia, é construção, feita a passos lentos e dolorosos. Ao menosprezarem a política, deixaram de ver a necessidade de entrar no sistema para poder modificá-lo. Ao confiarem nas Forças Armadas, mesmo após as torturas e abusos sofridos, não perceberam que foram transformados em massa de manobra no golpe de julho contra Morsi. Mais importante, como afirmou o analista Eric Trager em artigo na revista The New Republic, ao não se engajarem com a massa da população egípcia, os revolucionários não conseguiram ver como as intermináveis manifestações alienaram boa parte o povo ao simples ato de protestar. Ao contrário das estrelas de The Square, a maior parte dos egípcios vai comprar a comida de amanhã com o dinheiro ganho hoje. Para esses, a estabilidade está à frente do desejo por democracia, especialmente depois de três anos de crise. Não é à toa, portanto, que novamente os revolucionários da Tahrir estejam indo para a cadeia, desta vez ao lado dos irmãos muçulmanos, enquanto uma nova ditadura se estabelece, aclamada por milhões de egípcios.

Título: The Square
Título original: Al Midan
Diretora: Jehane Noujaim

*The Square está disponível no Netflix

Publicado originalmente em CartaCapital

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