O Iraque vai continuar existindo após as eleições?

É difícil escolher um único episódio para simbolizar quão desastrosa foi a invasão e posterior ocupação do Iraque liderada pelos Estados Unidos e secundada pelo Reino Unido em 2003. Trilhões de dólares foram gastos; o país virou abrigo para a Al-Qaeda; e centenas de milhares de pessoas perderam suas vidas. Mesmo diante de tudo isso, as eleições parlamentares desta quarta-feira 30 podem virar um exemplo ainda mais trágico de como a tentativa de impor a democracia goela abaixo dos iraquianos foi um fiasco – o exercício democrático pode ser o estopim de uma guerra civil.

O Iraque vive há meses uma nova escalada de tensão sectária entre xiitas, sunitas e curdos. A onda de violência tem provocado uma série de atentados e massacres, que se intensificaram com a proximidade das eleições. Apenas na segunda-feira 28, ao menos 50 pessoas morreram em ataques a bomba.

A instabilidade está por todo o país e coloca em jogo a própria existência do Iraque, uma invenção de ingleses e franceses após a Primeira Guerra Mundial. A fratura mais significativa é a dos curdos, que habitam majoritariamente a região norte doIraque. Autônomos desde 1991, os curdos têm criado laços cada vez maiores com o Irã e a Turquia. Preocupados com os conflitos sectários do Iraque, parecem estar preparando uma porta de saída caso o país comece a ruir.

O principal foco de violência, entretanto, é a província de Anbar, no oeste do Iraque, onde ficam cidades importantes como Ramadi, a capital regional, e Fallujah. Líderes tribais sunitas combatem o governo central com a alegação de que são prejudicados e marginalizados pelo governo, controlado pelo primeiro-ministro xiita Nouri al-Maliki. Alguns falam claramente que a intenção é restabelecer o controle da minoria sunita sobre o Iraque, encerrado com a derrubada de Saddam Hussein. Ao lado deles, mas nem sempre com a mesma causa, atuam os militantes sunitas do braço da Al-Qaeda no Iraque, o Estado Islâmico doIraque e do Levante, conhecido pelo acrônimo em inglês ISIL. São esses os responsáveis pelos atentados ao redor do país.

A brutalidade atual remete à ocorrida na guerra civil de 2006 e 2007. Aquele confronto só foi contido com o reforço de tropas norte-americanas enviadas pelo então presidente dos EUA, George W. Bush, o mesmo que liderou a invasão de 2003. Desta vez, entretanto, não há auxílio dos EUA. Washington, já sob o comando de Barack Obama, deixou o Iraque de forma definitiva em 2011.

Como o Exército iraquiano é fraco para conter os combatentes sunitas, especialmente os do ISIL, milícias xiitas têm atuado como uma espécie de tropa de choque das Forças Armadas iraquianas. Uma reportagem da Reuters mostrou, no domingo 27, como essas milícias agem: a ordem é para não fazer prisioneiros e, em meio às execuções dos combatentes sunitas, muitos inocentes são também assassinados. Há indícios de que o próprio Maliki tem ligações com as milícias xiitas, mas, por enquanto, não existem provas. O premier, cada vez mais autoritário, nega favorecer a maioria xiita, da qual faz parte, e atribui a violência à interferência da Arábia Saudita, bastião do radicalismo sunita no Oriente Médio.

Se no curto prazo a violência é trágica, a médio e longo prazos as eleições podem provocar um efeito ainda pior. No sistema majoritário que vigora no Iraque, os partidos têm poucos incentivos para fazer campanha para todos os grupos de eleitores. Assim, políticos xiitas fazem campanhas para eleitores xiitas, sunitas para sunitas, curdos para curdos e assim por diante. Como há inúmeras divisões entre esses grupos, a política iraquiana vira um mosaico sectário no qual os partidos e políticos são empurrados para posições extremas.

Maliki é o principal exemplo disso. A expectativa é de que seu grupo vença as eleições e faça uma coalizão com outros partidos xiitas. Para formar um governo, entretanto, Maliki precisará fazer acenos a grupos sunitas e curdos, tarefa na qual terá enorme dificuldade, dada sua incapacidade de harmonizar os interesses dos principais grupos étnico-religiosos do Iraque. Mesmo em caso de derrota de Maliki, não se sabe quem poderia liderar o processo de negociações. No Iraque de hoje sobra radicalismo e faltam comprometimento e moderação, características que facilitariam a busca de um meio termo capaz de incluir todos os grupos no novo governo. Para alguns analistas, os diálogos poderiam se arrastar por até um ano. Com o vulto de uma nova guerra civil ficando cada vez maior, as perspectivas de que um governo inclusivo seja formado são ínfimas.

No limite, a guerra civil poderia despedaçar o Iraque, dando início ao que poderia ser um conflito de proporções gigantescas envolvendo potências regionais como Irã, Turquia e Arábia Saudita, além de Rússia e Estados Unidos, pelo controle das populações hoje iraquianas e das enormes reservas de petróleo sobre as quais elas vivem. As inúmeras tragédias experimentadas pelos povos do Oriente Médio até hoje seriam uma nota de rodapé na história caso uma guerra regional fosse deflagrada hoje. O drama da Síria, com seus mais de 130 mil mortos e 2,7 milhões de refugiados, indica o tamanho da catástrofe.

A eleição de 2014 é a quarta desde a invasão do Iraque pelos Estados Unidos. Isso significa que, ao menos, os procedimentos de um regime democrático estão instalados. Washington deveria ter entendido, no entanto, que só isso não basta. O Iraque precisaria desenvolver um sistema de segurança mútua, no qual os diversos grupos tivessem seus interesses contemplados. Imaginar que, ao contrário do que a história humana mostra, a cultura democrática se instalaria a partir de uma ocupação estrangeira era um delírio do neoconservadorismo de Bush. O delírio virou um pesadelo. O Iraque de hoje, à beira de outra guerra civil, com potencial de despedaçar o país e engolfar o Oriente Médio no caos, é resultado deste experimento perverso.

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