Racha no Oriente Médio dificulta a paz em Gaza

Sandálias de criança e uma arma quebrada em uma poça de sangue na cidade de Gaza, em 28 de julho (Foto: @TamerELG)
Sandálias de criança e uma arma quebrada em uma poça de sangue na cidade de Gaza, em 28 de julho (Foto: @TamerELG)

A grande lição da “Primavera Árabe” é simples em forma e grandiosa em repercussão. Ficou claro desde 2011 que qualquer abertura democrática na região trará à tona forças da sociedade reprimidas nas últimas décadas. Essa é uma consequência óbvia, e comum a qualquer país sob regime autoritário, mas no Oriente Médio teve um efeito intenso: dividiu os países da região de forma profunda, criando um racha que, hoje, dificulta a obtenção de um cessar-fogo entre Israel e o grupo palestino Hamas, em guerra desde 8 de julho.

A divisão ocorreu porque a principal força a emergir dos escombros do autoritarismo no mundo árabe-muçulmano foi o chamado islã político, a ideologia segundo a qual o islã não é apenas uma religião, mas é religião e Estado e deve perpassar todas as esferas da vida.

A grande representante desta ideologia é a Irmandade Muçulmana, que chegou ao poder no Egito em 2012 e cujo governo foi destituído por um golpe civil-militar em 2013. Desde a derrubada, diversos líderes do movimento foram presos, outros se exilaram e centenas de seguidores foram mortos pelas forças de segurança egípcias. A Irmandade foi declarada um grupo terrorista pelo Egito, decisão apoiada pelos governos de Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos e Jordânia.

Para este grupo de países, liderado pelos sauditas, contrapor os irmãos muçulmanos é uma necessidade estratégica. Eles temem as organizações análogas à Irmandade que atuam dentro de seus territórios e poderiam causar instabilidade política, ameaçando as monarquias locais. Para a Arábia Saudita, barrar a ascensão do movimento islamita é também uma necessidade teológica, pois o reino vê a si próprio como dono da verdade do islã, uma condição ameaçada pela ideologia professada pela Irmandade.

Para esses países, conter os irmãos muçulmanos é uma prioridade, que deve ser buscada em todas as frentes, inclusive na Faixa de Gaza, onde atua o Hamas, grupo adepto de uma ideologia semelhante à da Irmandade. Combater o Hamas significa apoiar Israel, mas esta não é exatamente uma novidade para países como a Arábia Saudita e a Jordânia – eles agem em conjunto com Israel na pressão para que os Estados Unidos ataquem o Irã, visto, assim como o islã político, como uma ameaça estratégica regional.

O Hamas se encontra pressionado, mas não sozinho. Os principais apoiadores da facção palestina são hoje o Catar e a Turquia. O governo turco é controlado, desde o ano 2000, pelo AKP, partido de matriz islâmica semelhante à da Irmandade. Além disso, a Turquia busca liderar o Oriente Médio e vê na causa palestina uma forma de fazer isso, especialmente depois de ter rompido relações com Israel em 2010. Para o Catar, o apoio ao islã político tem também duas fontes. Por um lado, o país busca há anos ampliar seus status internacional e adotar uma política externa independente, sem depender da Arábia Saudita. Por outro, ao defender os irmãos muçulmanos no cenário internacional o Catar “compra” tranquilidade dentro de suas fronteiras: em 1999, a Irmandade Muçulmana do Catar se desfez voluntariamente, reduzindo a possibilidade de uma oposição religiosa ameaçar a monarquia local.

John Kerry e o cessar-fogo

O racha entre Arábia Saudita e Catar e Turquia se fez presente nas negociações do cessar-fogo entre Israel e o Hamas. Logo no início do confronto, uma proposta de cessar-fogo foi apresentada pelo Egito. O texto, centrado nas demandas de Israel a respeito de sua segurança, foi elaborado sem a participação de qualquer integrante do Hamas e apresentado ao grupo já pronto. Foi rejeitado de antemão.

Diante da escalada de violência, a diplomacia norte-americana entrou em cena. O secretário de Estado, John Kerry, se encontrou em Paris com os ministros do exterior do Catar e da Turquia e apresentou um rascunho de um documento de cessar-fogo que, ao contrário do inicial, trazia mais demandas do Hamas. A simples apresentação do texto indignou integrantes do governo israelense, que viram nela uma ofensiva equiparação de status entre Israel e o Hamas.

Em 2012, na última ofensiva israelense na Faixa de Gaza, o cessar-fogo foi mediado por Mohammed Morsi, irmão muçulmano e então presidente do Egito. Hoje, Morsi está preso, enfrentando diversas acusações, entre elas a bastante contestável de conspirar para cometer atos terroristas em parceria com o Hamas. Em seu lugar, subiu ao poder Abdel Fattah al-Sissi, o ditador que persegue a Irmandade e é visto com desconfiança pelo Hamas por conta de sua aliança tácita com Israel e o bloco liderado pela Arábia Saudita. Ao mesmo tempo, Israel não vê como legítimas as iniciativas patrocinadas por Catar e Turquia e denuncia até seu principal aliado, o governo americano, por integrar esses países nos diálogos. Em meio à disputa de poder regional, não parece haver mediador possível para conter a violência de Israel e do Hamas. Nesta terça-feira 29, o confronto atual chega a seu 22º dia e se torna o mais longo dos três travados entre as duas partes desde 2008. Quem paga, como sempre, são os civis.

*Texto publicado originalmente no site de CartaCapital

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