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Israel entende outra linguagem que não a da violência?

Nas últimas três semanas, está em curso uma onda de violência em Israel e na Palestina que traz um recado bastante claro ao governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. A estratégia de perpetuar o status quo, intensificando a ocupação dos territórios palestinos em troca de uma segurança precária aos cidadãos israelenses, não poderá ser sustentada para sempre. E pode, eventualmente, desmoronar, dando lugar a um conflito ainda mais profundo. Lamentavelmente, não há no governo Netanyahu, e talvez na política israelense, alguém interessado em entender essa mensagem.

Desde 1º de outubro, oito israelenses, civis, policiais e soldados, foram mortos por palestinos, em ataques com facas, chaves de fenda, cutelos ou veículos jogados contra pessoas que andavam pelas ruas. No mesmo período, 52 palestinos, entre eles suspeitos de ataques, mas também manifestantes desarmados e outros civis que estavam na hora errado no lugar errado, foram assassinados por militares ou assentados israelenses. Não há um padrão identificável dos palestinos que atacaram israelenses nos últimos dias. Há entre eles adolescentes e adultos, alguns militantes do Hamas, movimento islamista que controla a Faixa de Gaza, estudantes e trabalhadores sem antecedentes criminais. Não se vê coordenação entre os ataques, tampouco uma liderança unificada.

Para o governo israelense, não resta dúvida de que a violência tem origem na incitação anti-Israel feita por líderes do Hamas e da Autoridade Palestina, nomeadamente seu presidente, Mahmoud Abbas, e no sentimento de que os judeus não pertencem ao Oriente Médio. “O terrorismo não vem da frustração por conta da falta de solução diplomática, mas do desejo de nos destruir“, disse Netanyahu na semana passada. Essa narrativa favorece e justifica a resposta inclemente das autoridades israelenses aos ataques.

Vídeos, testemunhos e relatos indicam que alguns dos palestinos assassinados, mesmo os que agiam violentamente, poderiam ter sido detidos ou dominados sem o uso de força letal, mas foram mortos mesmo assim. Esse tipo de procedimento é a política oficial de Israel, que emana do governo e é apoiada pela oposição. “O terrorista que tentou esfaquear um soldado foi baleado e morto e essa é a resposta correta”, disse o líder da oposição, Yair Lapid, após um dos ataques. “Esse deve ser o modelo de operação”.

A tentativa de demonizar os palestinos chegou ao auge na terça-feira 20, quando Netanyahu afirmou que Haj Amin al-Husseini, mufti de Jerusalém nos anos 1940, deu a ideia de exterminar judeus a Adolf Hitler. O disparate, desmentido pelo governo da Alemanha e por alguns dos principais historiadores israelenses, fez Netanyahu se desdobrar para provar que não é um defensor do líder nazista.

A propaganda oficial, somada ao pânico gerado pelos ataques, mostrou que o ódio viceja não apenas entre os civis palestinos. Na sexta-feira 23, Arik Ascherman, líder do grupo Rabino pelos Direitos Humanos, escapou por pouco de um ataque realizado por um extremista judeu na Cisjordânia.

No dia 15, Uri Rezken, judeu, foi confundido com um árabe e esfaqueado por outro judeu em Haifa. “Senti quatro facadas e ouvi alguém dizer: você merece, você merece, seu árabe de merda”. Resken sobreviveu, sorte que Haftom Zarhum não teve. Judeu da Eritreia, ele foi confundido, por conta da pele escura, com um árabe que fizera um ataque na rodoviária de Bersheeba, e acabou linchado por transeuntes.

Abbas sai de cena?

A tentativa das autoridades israelenses de colocar a culpa da violência em Mahmoud Abbas, o presidente da Autoridade Palestina, revela o cinismo do governo Netanyahu e do bloco de direita ligado a ele. Desde o início dos anos 2000, este grupo político está engajado em uma tentativa deliberada de congelar o processo de paz. A intenção é manter o impasse atual para sempre, sem anexar os territórios palestinos, o que implicaria custos políticos enormes, ou permitir o estabelecimento de um Estado palestino, o que colocaria em risco a existência de Israel – na visão da direita. Nunca essa intenção ficou tão clara quanto em março passado: em campanha eleitoral, Netanyahu, que internacionalmente defende a chamada “solução de dois Estados, prometeu que não haveria Estado palestino se fosse reeleito.

Mahmoud Abbas é uma figura central neste projeto. O líder palestino é um burocrata que há décadas se dedica a defender uma resistência não violenta à ocupação. Essa característica o ajudou a subir ao poder no fim da Segunda Intifada, um levante palestino ocorrido entre 2000 e 2005, mas a estratégia não tem como avançar, fracasso que o próprio Abbas reconheceu em discurso nas Nações Unidas no fim de setembro. O plano B da Autoridade Palestina é ampliar a pressão internacional sob Israel, mas há indicativos de que a estratégia também vai naufragar.

A ineficácia da liderança palestina enfraquece Abbas, assim como a perspectiva de ele sair de cena – aos 81 anos, já deu indicações de que pretende se aposentar em curto prazo. No vácuo de Abbas, surgem líderes dispostos a retomar a faceta revolucionária (e violenta) do Fatah, o partido de Abbas, controlador da Autoridade Palestina. “Nós do Fatah fomos os primeiros a lançar a revolução e usar a resistência armada”, disse Jibril Rajoub, vice-secretário-geral do Comitê Central do Fatah. “Desde o dia um nós lançamos dois princípios: resistência e independência. O caminho para a independência é a resistência.”

Outro integrante do Fatah, ouvido de forma anônima pelo site Al-Monitor, é ainda mais claro. Segundo esta fonte, Abbas já enviou diversos recados a Netanyahu a respeito da impossibilidade de conter a resistência violenta por muito tempo. “Mas talvez seja tarde e o Tanzim [o braço armado do Fatah] pode logo se sentir compelido a se unir [aos ataques] e liderar”, disse. “Eles não vão deixar o primeiro plano do confronto contra Israel para o Hamas. E aí isso não vaia acabar em uma [terceira] intifada, mas em uma guerra de independência. Israel e os Estados Unidos nos deixaram poucas escolhas”.

A ocupação é o cenário da violência

Com razão, o povo palestino não confia em seus líderes, mas o sentimento é semelhante ao dos representantes do Fatah. Em setembro, uma pesquisa mostrou que 57% dos palestinos apoiam um novo levante violento contra Israel, número que vai a 71% entre os homens de 18 a 22 anos.

Na atual onda de violência, muitos dos ataques remetem a uma disputa sobre as regras do complexo religioso conhecido como Haram al-Sharif pelos árabes e Monte do Templo pelos judeus. O status do local não está claramente definido, o que cria uma série de mal-entendidos. Em um ambiente de tensão, eles facilmente se tornam disputas pela soberania no local.

Reverenciado no islã e no judaísmo, o complexo é visto pelos palestinos como um raro resquício de orgulho nacional e religioso, e os problemas ali acabam remetendo à ocupação como um todo. O óbvio fator a unir os palestinos autores dos ataques, assim, é a realidade à qual são submetidos, uma de arbitrariedade e punição coletiva por parte de Israel, abandono por parte dos países árabes e desprezo por parte de Estados Unidos e União Europeia, cenário que destruiu qualquer perspectiva de um Estado palestino.

Aos poucos, vai se galvanizando na sociedade palestina o sentimento de que Israel não entende outra linguagem que não seja a da violência. Como observou o analista Nathan Thrall em artigo recente para o jornal The New York Timesa violência tem sido o fator mais consistente na retirada territorial israelense. Foi assim em 1993, quando os palestinos ganharam certa autonomia na Cisjordânia, e em 1996 e 2005, quando Israel desocupou, respectivamente, a cidade de Hebron e a Faixa de Gaza. Nos períodos sem grandes confrontos, como o vivido atualmente, a linha-dura se fortaleceu em Israel e os assentamentos nos territórios palestinos se expandiram.

Israel tem todas as condições para estabelecer a paz com os palestinos: uma economia sofisticada, forças armadas formidáveis e apoio diplomático estrangeiro, inclusive de países árabes que outrora tentaram destruí-lo. Um acordo negociado poderia dar segurança a Israel e acabar com o inferno imposto aos palestinos. Falta, entretanto, vontade política para isso. Em agosto, durante encontro com israelenses premiados com o Nobel, Benjamin Netanyahu falou sobre o conflito de Israel com o Irã e destacou o desenvolvimento israelense. “Ninguém faz a paz com os fracos“, disse. Talvez os palestinos tenham entendido o recado.

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