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Islã e terrorismo

Os atentados terroristas em Paris serviram de estopim para uma nova onda de discurso de ódio direcionado ao islã. Na França, a desconfiança e a hostilidade aos muçulmanos se solidificam, enquanto nos Estados Unidos a islamofobia ganha legitimidade no debate político e, até no Brasil, muçulmanos são alvos de agressões físicas. Tais manifestações mostram que a intolerância caminha de mãos dadas com a ignorância.

Há alguns anos, o mundo se acostumou a relacionar o mundo muçulmano com violência e terrorismo. Ainda que essa percepção seja desproporcionalmente criada, é preciso reconhecer que há relação entre o terror islâmico e o islã. Os integrantes do Estado Islâmico (como os da Al-Qaeda e de outros grupos jihadistas) têm motivações religiosas, agem em nome do islã e acreditam estar representando seu credo, ainda que sua visão de mundo seja amplamente rejeitada no mundo árabe-muçulmano.

Para contrapor a islamofobia, boa intenção de quem costuma negar a conexão entre o terrorismo e a religião, mais útil é examinar a relação entre o islã e o terror praticado em seu nome.

Como as outras religiões, o islã tem escrituras vastas e contraditórias. Há no Corão e nos Hadith (o corpo de relatos sobre a vida de Maomé) justificativas para a violência e a perseguição religiosa, mas também argumentos a favor da paz e da tolerância. O mesmo ocorre no Velho Testamento, que aprova o genocídio e a morte de inocentes, entre outras barbaridades, e no Novo Testamento, no qual Jesus Cristo recomenda a morte de quem recusa seu reinado.

No judaísmo e no cristianismo, prevalecem leituras interpretativas e alegóricas dos textos sagrados, mas o mundo muçulmano está coalhado de literalismo e radicalismo. Por quê? A explicação está menos na religião e mais na história e na política.

Historicamente, o Oriente Médio é uma região dominada por potências estrangeiras. A luta contra o arbítrio externo teve diversas formas, mas ao longo do século 20 o islã político galvanizou-se como uma das mais atrativas e, às vezes, a única possível, tendo em vista o autoritarismo reinante na região. Este movimento político-religioso passou por metamorfoses ao longo dos anos e produziu uma ala violenta, que prospera sob a bandeira do jihadismo.

Em parte, o apelo da “guerra santa” persevera porque é partilhado pela leitura intolerante do islã professada e exportada pela Arábia Saudita – o salafismo, ou, na versão local, wahabismo. Também contribui para a força do jihadismo o fato de ele ter um significativo público passível de ser conquistado, seja na Europa, onde a ideologia é capaz de suprir a desilusão de jovens alienados, ou no Oriente Médio, onde é vista por alguns como uma alternativa crível para a falta de perspectivas imposta pelos Estados fracassados da região.

Acrescente-se a isso o fato de o islã, que serve de pano de fundo civilizacional para muitos no Oriente Médio, ser objeto de uma recorrente manipulação pelas ditaduras da região, inclusive as ditas laicas. Exemplos abundam.

O artigo 2 da Constituição do Egito, que prevê a sharia (lei islâmica) como “fonte primária de legislação” e sobrevive até hoje, foi colocado ali em 1971 por Anwar al-Sadat, ditador militar que usou o islamismo para contrapor o socialismo do período anterior. Saddam Hussein, do partido socialista Baath, buscou o apoio de religiosos nos anos 1990 com a Campanha da Fé, na qual instituiu mutilações e decapitações como sentença de crimes e a repressão ao consumo de álcool. Atualmente, o ditador do Egito, Abdel Fattah al-Sissi, um militar reformado, persegue a comunidade LGBT no Egito abrindo processos com base no “desprezo à religião” e em violações da “moralidade pública”. 

Um dos resultados desta manipulação é uma radicalização ainda maior da sociedade e da religião como um todo. No caso do Iraque de Saddam Hussein, sua Campanha da Fé ocasionou a islamização de diversos integrantes do Baath e do Exército, alguns dos quais fazem parte, hoje, do Estado Islâmico. Como consequência, fecham-se os espaços para o dissenso teológico a respeito do islã. Em grande medida, os jihadistas têm um espaço público sem oposição, e muitas vezes favorável, para escolher as escrituras que mais se adaptam a seus planos totalitários, e geralmente preferem as mais sanguinárias.

Logo após um atentado terrorista, é comum ouvir o clamor para que o islã passe por uma “reforma”, nos moldes da que ocorreu com o cristianismo. As religiões, entretanto, não são análogas. Enquanto Jesus Cristo recomendou dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, o Corão traz embutido em si não só os ditames de uma religião, mas um sistema econômico, jurídico e político. Um casamento com a modernidade que possa discutir a relação do islã com a democracia e o Estado moderno, abrir diálogo sobre conceitos como sharia e jihad e resgatar a herança de pluralismo e tolerância é não só desejável como necessário.

Esta tarefa cabe, é óbvio, apenas e tão somente aos muçulmanos. Deve-se lembrar, no entanto, que cada religião é afetada de maneiras diversas pela história e por eventos geopolíticos. No caso do Oriente Médio, o islã está inserido em um ambiente marcadamente caótico.

Na semana passada, a Nahdlatul Ulama, organização religiosa com milhões de adeptos na Indonésia, o maior país muçulmano do mundo e uma democracia em desenvolvimento, lançou uma campanha mundial para contrapor o jihadismo e o Estado Islâmico. Faz parte da iniciativa um filme de uma hora e meia no qual clérigos indonésios criticam e classificam de perversas as interpretações do Corão e dos Hadith feitas pelo Estado Islâmico.

Iniciativas como essas podem surgir no Oriente Médio. De fato, diversas organizações e clérigos condenaram o Estado Islâmico. Cabe uma questão, entretanto. Como um projeto desses ganharia tração e geraria resultados se os regimes locais, apoiados pelas grandes potências mundiais, fortalecem e estimulam o extremismo para se sustentar no poder? Sem responder a essa pergunta, não é possível discutir os rumos do islã no Oriente Médio.

*Publicado originalmente em CartaCapital

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