Elor Azaria e uma pequena vitória para a democracia de Israel

Azaria durante seu julgamento (Foto: Reprodução / Youtube)
Azaria durante seu julgamento (Foto: Reprodução / Youtube)

A democracia israelense teve uma pequena vitória nesta quarta-feira 4, com a condenação unânime do sargento Elor Azaria, de 19 anos, pela morte do palestino Abdel Fattah al-Sharif. Os três juízes da corte militar consideraram Azaria culpado em um veredito que não deixa nenhuma dúvida a respeito da natureza do crime.

O caso é emblemático pois trouxe à tona fissuras decisivas na sociedade israelense, que dizem respeito ao futuro do país.

O crime de Azaria ocorreu em 24 de março de 2016, em Hebron, na Palestina. Foi capturado em uma filmagem de um ativista da B’Tselem e logo correu o mundo. Após esfaquear dois soldados israelenses, Al-Sharif foi baleado. Ferido, dominado e caído no chão, encontrava-se à mercê dos soldados israelenses. Enquanto seus colegas eram acudidos, Azaria carregou seu fuzil e executou Al-Sharif com um tiro na cabeça. Um evidente assassinato à sangue frio, que chocou a opinião pública mundial.

Em Israel, entretanto, a indignação foi provocada pelo fato de Azaria ter sido processado, e agora condenado, pelo crime. Sólidas maiorias na sociedade israelense estavam a seu lado, a ponto de 82% dos entrevistados em uma pesquisa realizada em abril de 2016 acreditarem que o sargento tinha justificativas para atirar em Al-Sharif.

Não cabe aqui entrar em detalhes sobre a gênese do ódio que os israelenses sentem pelos palestinos, mas no Brasil de 2017 não é exatamente difícil imaginar como uma sociedade quase inteira passa a defender o assassinato de um “inimigo” do Estado à luz do dia, ainda que extra-judicialmente e que a vítima estivesse indefesa. Cabe lembrar, ainda, que este caso nem de longe é o primeiro abuso desse tipo cometido por Israel. Violações de direitos humanos nos territórios ocupados são, cada vez mais, costumeiras.

E aqui é preciso fazer uma reflexão sobre o futuro israelense. Em discurso recente, o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, ecoou o que muitos analistas já afirmaram. Se Israel continuar ocupando a Palestina, não poderá manter a alegação de que é um Estado judeu e democrático.

Kerry falou sobre o futuro, mas a verdade é que tal realidade já não existe. Ainda que em suas fronteiras Israel tenha um regime bem mais democrático que os de seus vizinhos, o Estado israelense ocupa ilegalmente a Cisjordânia e, numa aberração política, transformou a Faixa de Gaza em uma prisão a céu aberto. Nenhum país que promove esses absurdos pode ser considerado democrático.

As Forças Armadas israelenses, é verdade, têm um papel decisivo nesta realidade. São elas que, em última instância, mantêm a situação ao operarem a ocupação, submetendo soldados como Azaria a uma condição ingrata.

Veio do establishment militar, no entanto, o humilde alento para a democracia israelense, ao estabelecer que executar uma pessoa indefesa é uma prática proibida. A decisão se deu sob enorme pressão. Azaria foi julgado por homicídio culposo e não doloso, ainda que sua intenção de matar fosse patente.

A corte teve de abandonar sua sala de habitual e se reunir em um complexo murado e bem protegido para manter os manifestantes distantes.  Do lado de fora, centenas de pessoas, incluindo hooligans de extrema-direita do Beitar Jerusalem, protestaram, aos gritos de “Gadi tenha cuidado, Rabin quer um amigo“. Gadi é Gadi Eisenkot, chefe do Estado-maior das Forças Armadas de Israel, e Rabin é Yitzhak Rabin, ex-premiê assassinado por um extremista de direita em 1995.

Neste clima, os três juízes (Maya Heller, Carmel Wahabi e Yaron Sitbon) e o chefe da promotoria, Nadav Weissman, serão escoltados por temerem represálias.

Mais importante, o establishment militar, que criticou a ação de Azaria, vem sendo acossado por políticos israelenses de todas as matizes, muitos deles insistindo em um perdão ao sargento, como fez o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu. Como afirmou o ex-ministro da Defesa Moshe Yaalon, o episódio serviu para muitos políticos realizarem uma “exploração cínica” do caso em troca de votos.

Ainda assim, a condenação tem um peso prático e simbólico relevante. O que não se sabe é se ainda resta em Israel alguém que combine intenção e capital político suficiente para tirar o país do rumo iliberal e ditatorial no qual se encontra.

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