É real o risco de uma ampla guerra no Oriente Médio

Hariri com António Guterres, da ONU, em abril de 2017. (Foto: Christophe Verhellen / UN Photo)

Em 4 de novembro, o primeiro-ministro do Líbano, Saad Hariri, renunciou. Em um vídeo gravado na Arábia Saudita, Hariri disse temer por sua vida e denunciou a influência do Irã em seu país. Imediatamente, surgiram comentários segundo os quais a renúncia seria um prelúdio para um novo confronto entre o Hezbollah, a principal força política e militar libanesa, e Israel. Não seria uma surpresa diante do contexto recente no Oriente Médio.

O primeiro aspecto a se levar em conta é a política interna libanesa. Desde 2005, quando o então premiê, Rafik Hariri (pai de Saad), foi assassinado, o país encontra-se dividido entre duas coalizões políticas principais:

Aliança 8 de Março

  • Liderada pelo Hezbollah, um grupo xiita;
  • é anti-Israel;
  • é favorável ao regime de Bashar al-Assad, na Síria.

Aliança 14 de Março

  • Liderada pelo Movimento O Futuro, de Saad Hariri, sunita;
  • é nacionalista;
  • é anti-Assad.

A grosso modo, partidos muçulmanos seguem essa separação. Os cristãos maronitas e outras minorias, como os armênios, encontram-se divididos, com siglas figurando nos dois blocos. Cabe lembrar que a Síria é um tema divisivo no Líbano pois ocupou militarmente o país por 24 anos, tendo se retirado após o atentado contra Rafik Hariri.

Outra lembrança importante. O sistema político libanês é confessional. Prevê que o presidente seja sempre um cristão, que o primeiro-ministro seja um sunita e o presidente do parlamento, um xiita.

Em 2016, Saad Hariri rompeu um impasse ao apoiar para a presidência do Líbano o nome de Michel Aoun, do partido cristão Movimento Patriótico Livre, que atualmente é um firme aliado do Hezbollah. O governo formado conseguiu passar legislações importantes, como o orçamento, trazendo alívio para a vida cotidiana dos libaneses. Sua formação e atuação foi, no entanto, vista por muitos como uma vitória política para o Hezbollah.

Irã x Arábia Saudita

O segundo aspecto a ser levado em conta é o componente regional. A lógica que guia os acontecimentos no Oriente Médio atualmente é a da rivalidade entre Arábia Saudita e Irã. Ambos foram adversários até 1979, mas o antagonismo era mediado pelos Estados Unidos. A partir da Revolução Islâmica daquele ano, que tirou o Irã da esfera de influência norte-americana, os dois países entraram em rota de colisão.

Atualmente, a hostilidade, originariamente geopolítica e econômica, ganha cada vez mais contornos sectários, na linha do cisma entre sunitas, como o regime saudita, e xiitas, como o regime iraniano. Isso é evidente nos casos do Iêmen, da Síria e do Iraque. Enquanto o Irã busca ganhar influência, a Arábia Saudita e seus aliados mais próximos, como os Emirados Árabes Unidos, tentam conter os iranianos.

Ocorre que o Irã parece estar em uma posição favorável atualmente. Por meio de partidos e milícias xiitas, Teerã segue muito influente no Iraque. Na Síria, Assad, patrocinado pelo Irã, sobreviveu e está se fortalecendo. No Iêmen, a Arábia Saudita se afundou em um conflito de difícil resolução contra os Houthis (vagamente ligados ao Irã), no qual suas forças armadas violam direitos de maneira contumaz, afetando duramente a imagem externa saudita.

As frentes de batalha

E onde entra o Líbano? Na junção entre as duas dimensões citadas antes, a nacional e a regional. Assim como Iêmen, Síria e Iraque, o Líbano é um dos fronts na guerra por procuração travada entre sauditas e iranianos. Como a existência do governo era tida como positiva para o Irã, sua dissolução automaticamente é positiva para Riad. A ideia seria retirar do Hezbollah a possibilidade de ter um parceiro sunita, isolando o grupo xiita.

Não à toa, a renúncia de Hariri foi denunciada pelo líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, como uma obra da Arábia Saudita. Não há elementos para corroborar a acusação, mas é certo que dificilmente Hariri teria tomado a decisão sem anuência do governo saudita. Hariri tem nacionalidade saudita, sua família vive no reino e o conglomerado empresarial de seu pai, que faliu em julho de 2017, floresceu naquele país.

É importante ter em conta que, no atual momento, a Arábia Saudita passa por uma intensa “reestruturação política”. Levada a cabo pelo príncipe-herdeiro, Mohammad bin Salman, o processo envolve o expurgo de diversos príncipes e a prisão de muitos deles, assim como de empresários. Parece ser uma tentativa de Mohammad bin Salman de reafirmar seu poder no reino. E seu alvo, como resta evidente por suas declarações (e as de Donald Trump, seu aliado), é o Irã. Pressionar Hariri por uma renúncia, ou forçá-lo a deixar o cargo para dinamitar a legitimidade do Hezbollah, assim, seria um ato desta estratégia.

Mohammed bin Salman, o MBS. O filho do rei comanda o país e tem o Irã como alvo (Foto: Divulgação / Kremlin)

Israel x Hezbollah

Ainda no âmbito regional, um aspecto é determinante. Tanto a Arábia Saudita quanto Israel encaram a expansão do Irã como uma grave ameaça de segurança a seus interesses. Assim, estão unidos contra Teerã e seus parceiros. E o Hezbollah é o principal deles. O Hezbollah é libanês, mas suas ligações com o Irã são profundas. O grupo foi fundado pelo Irã e é financiado, treinado e abastecido por Teerã. Mais que isso, a fidelidade religiosa última do Hezbollah está com o líder do regime iraniano, hoje o aiatolá Ali Khamenei.

Na guerra civil da Síria, o Hezbollah teve e ainda tem um papel proeminente na defesa do regime de Assad e vem ajudando o Irã e implantar uma estratégia ambiciosa: criar um corredor terrestre seguro que conecte o Irã ao Líbano, passando pela região norte da Síria e do Iraque. É uma realidade que assusta Israel e a Arábia Saudita, mas cada vez mais factível diante da derrota militar do Estado Islâmico.

Atualmente, o Hezbollah concentra suas forças ao sul de Damasco, a capital síria. É uma região delicada, pois há ali uma significativa presença de rebeldes anti-Assad e, além disso, trata-se da fronteira entre Síria, Líbano e Israel. o caso da fronteira Síria-Israel, o objetivo militar são as Colinas de Golã, um planalto estratégico que foi quase totalmente ocupado por Israel em 1967. Se o Hezbollah passar a dominar a região, pode abrir um segundo front contra Israel, que se somaria ao existente, no sul do território libanês.

A fronteira Israel-Líbano-Síria. Em azul, as Colinas de Golã ocupadas por Israel; em preto, o bolsão do Estado Islâmico; em verde, o território dos rebeldes; e, em vermelho, as forças pró-Assad, que incluem o Hezbollah (Fonte: Syria.liveuamap.com)

Tal realidade é inaceitável para Israel. Para evitar isso, suas forças armadas tem realizado ataques recorrentes contra comboios de armas iranianas destinados ao Hezbollah. Com a fronteira fluída e os ânimos acirrados, essa realidade poderia mudar.

Como mostra este relatório de julho de 2017 do Institute for National Security Studies, um think tank ligado à Universidade de Tel Aviv, o Hezbollah é encarado pelo governo israelense como a “principal ameaça militar a Israel”. Desde a guerra entre as duas partes em 2006, inúmeros líderes militares israelenses afirmaram que um novo confronto é apenas uma questão de tempo.

Ao comentar a renúncia de Hariri, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, deixou isso evidente. “Eles querem trazer forças xiitas e iranianas para perto de Israel. Não vamos deixar isso ocorrer. Vamos resistir a isso”, afirmou em 5 de novembro.

O discurso do ministro saudita para assuntos do Golfo, Thamer Al Sabhan, é bastante semelhante. “Não vamos aceitar que o Líbano seja de qualquer forma uma plataforma de lançamento de terrorismo contra nossos países. Cabe aos seus líderes escolher se querem ser um estado terrorista ou um estado pacífico”, afirmou pelo Twitter em 6 de novembro.

No mesmo dia, em entrevista ao canal Al-Arabiya, Sabhan foi além. Chamou o Hezbollah, cujo nome significa Partido de Deus, de Partido de Satã, e afirmou que o grupo xiita está envolvido em “atos terroristas” contra a Arábia Saudita. O ministro afirmou que seu governo espera que o governo do Líbano “aja para deter o Hezbollah” e ameaçou declarar guerra. “Vamos tratar o governo do Líbano como um governo que declara guerra à Arábia Saudita devido à agressão do Hezbollah”, afirmou.

Dificilmente o governo saudita usaria esse tipo de retórica sem ter o apoio tácito dos Estados Unidos para suas ações. É improvável, entretanto, que a Arábia Saudita, cujas forças já estão dedicas à guerra no Iêmen, abra uma nova empreitada militar sozinha contra o Líbano. Essa “tarefa” recairia sobre Israel.

Com a derrubada do governo Hariri, o Líbano deve entrar em uma nova fase de instabilidade, o que dificultará a manutenção do equilíbrio na região. Tanto na guerra de 2006, entre Israel e o Líbano, quanto nos três conflitos entre Israel e o Hamas (2008, 2012 e 2014), a conflagração teve início sem que um dos lados estivesse totalmente convencido de que a opção armada era a melhor disponível. Mas erros de cálculo e uma escalada involuntária da tensão levaram à conflagração.

No atual momento, com a Arábia Saudita e Israel dispostos a conter o Irã a qualquer custo e com Teerã tentando ampliar sua capacidade de atacar Israel por meio do Hezbollah, qualquer escaramuça pode levar a mais uma rodada de carnificina. Muitos países e atores não-estatais percebem-se como ameaças existenciais mútuas e, sem o interesse dos Estados Unidos, não há mais um ator capaz de conter todos os possíveis beligerantes. Neste clima, a possibilidade de um confronto de múltiplos atores cresce a olhos vistos. As maiores vítimas, sem dúvida e como sempre, seriam os civis.

*Publicado originalmente em CartaCapital

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