A Arábia Saudita promete uma versão moderada do islã. É possível?

Para Mohammed bin Salman (centro), o radicalismo no reino é resultado da Revolução Iraniana (Foto: Divulgação / Kremlin)

O príncipe-herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, se engajou nos últimos meses em uma empreitada cujo objetivo é reformular a existência do reino. Para consolidar seu poder, MBS, como é conhecido o provável futuro monarca, comanda uma campanha contra dissidentes ou possíveis adversários em diversos campos, da política à religião, passando pela economia. No que diz respeito ao islã, e ao islã político, a doutrina derivada da crença segundo a qual a religião pode e deve guiar todos os princípios da vida, as mudanças são consideráveis, mas contraditórias.

O governo saudita costuma rejeitar a ideia de que tem uma parcela significativa de culpa pelo terrorismo jihadista, mas a história é evidente. Nas décadas de 1950 e 1960, o Oriente Médio viveu um conflito que muitos analistas chamam de Guerra Fria Árabe. Os polos desta confrontação eram a Arábia Saudita, tradicionalista e religiosa, e o Egito do ditador Gamal Abdel-Nasser, pan-arabista e socialista.

Neste período, em uma decisão que traria amplas repercussões para a região e todo o mundo, o governo da Arábia Saudita decidiu acolher em seu território integrantes da Irmandade Muçulmana expulsos de seus países. Fundada no Egito no fim dos anos 1920, a Irmandade nasceu como um movimento transnacional que pregava a islamização do Oriente Médio como forma de combater o colonialismo e o imperialismo. Com esse programa, se tornou alvo de Nasser e muitos de seus integrantes, no Egito e em outros países, como a Síria, procuraram refúgio no exterior.

Uma vez instalados na Arábia Saudita, os irmãos muçulmanos ganharam proeminência na mídia e no sistema educacional saudita, tanto como professores quanto como executivos, responsáveis pela feitura dos currículos escolares e universitários. Em pouco tempo, o islã político da Irmandade Muçulmana se fundiu com o wahabismo, a ideologia/teologia nativa da Arábia Saudita, que sustenta o governo local desde sua fundação. A simbiose deu origem a um movimento que entrou para a história com o nome de al-Sahwa al-Islamiyya (Despertar Islâmico), ou simplesmente Sahwa. Tratava-se de uma corrente híbrida entre as duas escolas de pensamento, cuja ideologia está na base do pensamento de grupos como a Al-Qaeda e o Estado Islâmico, por exemplo.

Nos anos 1990, a Sahwa ganhou tal proeminência na sociedade saudita que se tornou a principal oposição à monarquia local, questionando a legitimidade da realeza e se suas práticas eram genuinamente islâmicas. Enquanto alguns dos integrantes do movimento eram pacíficos, muitos se tornaram jihadistas ou ideólogos do jihadismo internacional. Uma intensa repressão foi realizada na década de 1990 e uma nova onda de prisões de clérigos ocorreu no início dos anos 2000, pouco depois do 11 de Setembro. Ao mesmo tempo, como a força política desse grupo se diluiu, o Estado saudita passou a acomodar algumas figuras que não ultrapassavam linhas vermelhas, como questionar a monarquia ou insuflar atentados.

Neste ano, com a ascensão de Mohammed bin Salman, o governo saudita parece dedicado a mudar as regras tácitas que regiam sua relação com os clérigos. Em junho, a monarquia abriu uma crise diplomática com o Catar, a quem acusa, com razoável dose de correção, de dar guarida a simpatizantes da Sahwa, da Irmandade Muçulmana e do jihadismo. Em setembro, cerca de 70 pessoas, incluindo religiosos populares, poetas, professores, ativistas de direitos humanos e empresários, foram presos. Muitos deles por terem se calado durante o auge da crise com o Catar. O fato de essas figuras não defenderem a ação da monarquia foi interpretado como apoio implícito ao Catar e desafio ao reino.

Em outubro, o príncipe-herdeiro e seu pai, o rei Salman, indicaram que a prisão dos religiosos radicais seria parte de um plano mais amplo. No dia 18, o governo saudita anunciou a criação, em Medina, do Complexo Rei Salman, que terá a missão de ser uma “fonte confiável do hádice correto e autenticado”. O hádice é um conjunto de leis e histórias sobre a vida de Maomé. Muitos, de natureza e veracidade duvidosa, são usados para justificar a violência jihadista.

Seis dias depois, MBS deu declarações ao jornal The Guardian nas quais tentou vender a repressão como uma reforma religiosa. O príncipe tratou da acomodação dos religiosos radicais realizadas pelos antecessores de seu pai e atribuiu este processo a uma tentativa de contrapor a influência do Irã. Foi uma estratégia equivocada, segundo ele. “O que aconteceu nos últimos 30 anos não é a Arábia Saudita. O que aconteceu na região nos últimos 30 anos não é o Oriente Médio. Após a Revolução Iraniana de 1979, as pessoas passaram a querer copiar esse modelo em diferentes países, um deles a Arábia Saudita. Nós não soubemos como lidar com isso e o problema se espalhou por todo o mundo. Agora é a hora de se livrar disso”, afirmou.

“Estamos simplesmente voltando para o que seguimos – um islã moderado aberto a todo o mundo e a todas as religiões”, afirmou. E quando isso vai ocorrer? Agora, segundo MBS. “70% dos sauditas têm menos de 30 anos, e honestamente não vamos desperdiçar 30 anos de nossas vidas combatendo pensamentos extremistas, vamos destruí-los agora e imediatamente”.

Na realidade, a Arábia Saudita nunca foi moderada. O wahabismo, sustentáculo do governo, é uma versão sectária do islã, que tradicionalmente tem como seus maiores inimigos os muçulmanos não wahabistas, em especial sufistas e xiitas. Com o ativismo político assimilado pelo wahabismo após a aproximação com a Irmandade e com a ameaça do Irã revolucionário, a monarquia saudita tratou de exportar essa ideologia. Assim surgiu o movimento jihadista internacional. Com o ímpeto canalizado para o exterior, a acomodação dos clérigos menos extremistas serviu para a monarquia continuar desfrutando da legitimidade derivada wahabismo.

Apesar da assertividade de Mohammed bin Salman, essa porção religiosa da reformulação em curso na Arábia Saudita deve ser vista com cuidado. Em primeiro lugar, porque nem todos que foram presos são extremistas. Entrou na lista Salman al-Odah, um clérigo que tem milhões de seguidores no Twitter. Odah chegou a ser elogiado por Osama Bin Laden, mas recentemente ficou famoso por uma “conversão” liberal. Após a Primavera Árabe, passou a defender a democratização da política, inclusive na Arábia Saudita.

Odah: na cadeia por não defender a pressão contra o Catar (Foto: Emad Alhusayni / Wikimedia Commons)

Em segundo lugar, cabe lembrar que a pressão contra radicais pode sair pela culatra. Por obra de MSA, a reforma vem acompanhada de uma liberalização dos costumes. Desde o fim de setembro, o governo removeu as proibições para que mulheres dirigissem e também para que frequentassem eventos esportivos. A abertura de cinemas pode ser a próxima medida na fila. Ocorre que, como um ministro saudita afirmou ao jornal The Observer em setembro, “a liderança [saudita] é significativamente menos conservadora que sua base”. As mudanças em curso não vão avançar sem resistência, portanto, até porque muitas opiniões religiosas radicais continuam sendo sancionadas pelo governo – em geral, os responsáveis por elas continuam sendo fiéis à monarquia. A perseguição a clérigos e a mudança em algumas normas sociais podem, neste cenário, aumentar o ressentimento dos mais conservadores com a monarquia, abrindo as portas para mais instabilidade.

Impetuoso, Mohammed bin Salman está promovendo uma reforma religiosa que muito provavelmente não poderá entregar e que é cheia de contradições, uma vez que os conservadores sustentam a legitimidade de sua família. Ao fazer isso, arrisca transformar uma monarquia absolutista que, apesar das contradições, é vista como um baluarte de estabilidade no Oriente Médio, em fonte de intranquilidade para os vizinhos e as grandes potências. Seria uma mudança profunda na realidade de toda a região e do mundo.

*Publicado originalmente em CartaCapital

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