O que diz a bandeira do Estado Islâmico?

O sequestro realizado na tarde desta segunda-feira 15 (madrugada no Brasil) em uma loja da Lindt na Martin Place, famosa rua de pedestres em Sydney, na Austrália, levantou questões a respeito da bandeira exibida pelo autor do crime e sua conexão com o Estado Islâmico, o grupo que tomou partes dos territórios da Síria e do Iraque recentemente. Há, de fato, uma conexão entre a bandeira exibida na vitrine da loja de chocolates e o grupo radical. Sua existência ajuda a explicar a natureza radicalismo muçulmano.

A imagem abaixo mostra a bandeira exibida pelo autor do crime. Ela é preta e traz a shahada, o testemunho de fé básico de qualquer muçulmano religioso. O que está escrito é “Não há deus a não ser Deus, Maomé é o mensageiro de Deus”. A frase é comumente usada pelos muçulmanos em preces e eventos religiosos, e aparece desde 1973 na bandeira da Arábia Saudita.

A bandeira exibida pelo sequestrador em Sydney (Foto: Reprodução)
A bandeira exibida pelo sequestrador em Sydney (Foto: Reprodução)

A bandeira do Estado Islâmico, abaixo, também é preta, cor identificada com a jihad travada por Maomé no século VII, mas é diferente. Ela também traz a shahada, só que dividida em duas partes: a primeira escrita no topo e a segunda dentro de um círculo branco, emulando o “selo de Maomé“, que segundo a tradição religiosa era usado pelo profeta para selar as cartas que enviava.

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O que revela o fato de os mesmos dizeres estarem nas preces dos muçulmanos, e nas bandeiras do sequestrador de Sydney, da Arábia Saudita e do Estado Islâmico? Em primeiro lugar, que o radicalismo muçulmano tem uma conexão com o islã, da mesma forma como ocorre com grupos radicais cristãos, judeus ou budistas. Concluir só isso, no entanto, é muito pouco, ou é demais no caso da versão britânica do Huffington Post, que levou ao ar durante a cobertura do sequestro em Sydney a abjeta capa abaixo.

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Escapou à compreensão dos editores do Huffington Post britânico, e escapa à de muitas pessoas, o fato de o radicalismo muçulmano (que não é um monólito, mas tem várias vertentes) estar inserido em um contexto de disputa sobre a vertente legítima do islã. Nesta batalha, os grupos radicais tentam se apropriar e dar o significado desejado a símbolos religiosos que podem ser vistos como pacíficos por milhões de pessoas, como é o caso da shahada.

Isso cria situações complexas, pois um protesto contra o Estado Islâmico que queime ou dessacralize a bandeira usada pelo grupo pode ofender um muçulmano qualquer, por exemplo, no Líbano, que nada tem a ver com o grupo radical que atua na Síria ou no Líbano. Da mesma forma, um muçulmano que exiba a bandeira pode estar simplesmente professando um ato de fé (certamente não foi o caso em Sydney), e não insuflando o radicalismo.

O islã tem uma relação problemática com o Estado, potencializada pela fraqueza do clero e pelo histórico de opressão política do Oriente Médio – iniciado pelas potências estrangeiras e consolidado pelas monarquias absolutistas e ditaduras seculares de hoje em dia. Cabe a quem deseja minar o radicalismo, além de combater os radicais, apoiar os milhões de indivíduos muçulmanos não violentos. Este é o exemplo da campanha #illridewithyou, por meio da qual australianos não muçulmanos estão se solidarizando com muçulmanos vítimas de preconceito diante do sequestro em Sydney.

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