Líbia: a Rússia começa a dar as cartas no futuro do país

Sarraj: governo legitimado internacionalmente, mas não internamente (Foto: Cia Pak / UN Photo/)
Sarraj: governo legitimado internacionalmente, mas não internamente (Foto: Cia Pak / UN Photo/)

Diante da guerra civil na Síria e do combate ao Estado Islâmico no Iraque, o noticiário internacional tem dado pouco destaque à situação na Líbia. Isso não significa que o conflito neste país do norte da África deva ser minimizado.

Forças líbias, com apoio de bombardeios e tropas especiais norte-americanas e europeias, praticamente derrotaram o Estado Islâmico, que havia estabelecido uma base em Sirte. Agora as atenções se voltam à resolução do conflito iniciado com a derrubada Muamar Kadafi, em 2011. E a Rússia ganha importância de forma crescente.

Neste momento, há um risco real de que a Líbia imerja em uma guerra civil aberta, cujo desfecho seria um desastre humanitário, e uma desestabilização da região mediterrânea, inclusive do Sul da Europa, abrindo um novo capítulo na crise dos refugiados.

O principal fator de instabilidade na Líbia hoje é o general Khalifa Haftar, ex-aliado de Kadafi transformado em agente da CIA, que abandonou os Estados Unidos após 2011 para retornar a seu país. Atualmente, Haftar comanda o autoproclamado Exército Nacional Líbio (ENL), um conglomerado de facções armadas baseado em Marj e Tobruk, no leste da Líbia.

Haftar conta com apoio do Egito, dos Emirados Árabes Unidos e, cada vez mais, da Rússia. Em junho e novembro de 2016, o general visitou Moscou e se encontrou com figuras do círculo próximo de Vladimir Putin, como os ministros da Defesa, Sergey Shoigu, e do Exterior, Sergey Lavrov. Em janeiro, foi recebido com honras no porta-aviões russo Almirante Kuznetsov, que voltava da Síria.

Na embarcação, Haftar teria assinado um acordo de US$ 2 bilhões em compra de armas russas, o que foi posteriormente negado pelo porta-voz do ENL.

Haftar é um fator de instabilidade porque é o mais importante dos poderosos da Líbia a não reconhecer o Governo de Acordo Nacional (GNA).

O GNA é a instituição que, no papel, representa o governo líbio. Formado em dezembro de 2015 após o Acordo Político Líbio (ANP), assinado no Marrocos, e referendado de forma unânime pelo Conselho de Segurança da ONU, o GNA deveria encerrar o caos institucional pós-Kadafi. Essa realidade está, entretanto, distante.

Liderado pelo primeiro-ministro Fayez al-Sarraj, o GNA ainda não conseguiu se legitimar aos olhos da população. A economia líbia segue em frangalhos e a segurança vem se deteriorando rapidamente. O GNA não possui um suporte militar e conta apenas com a aliança nominal das milícias da cidade de Misrata, decisivas na derrubada de Kadafi e também na derrota do Estado Islâmico em Sirte.

Parte do insucesso do GNA deriva da não-adesão de diversos grupos ao Acordo Político Líbio.

Há atualmente três governos no país. O primeiro é o GNA de Sarraj, baseado em Trípoli. O segundo também está na capital: é o Congresso Nacional Geral (GNC), um parlamento formado em 2012 que deveria ter sido extinto no acordo nacional, mas que insiste em funcionar. Liderado pelo “presidente do parlamento” Nouri Abusahmain e pelo “primeiro-ministro” Khalifa Ghwell, o GNC tem tentado desestabilizar Sarraj.

Em Tobruk, funciona a Casa do Parlamento que, segundo o Acordo Político Líbio, deveria ser o corpo legislativo do governo de Sarraj. Presidido por Aguila Saleh Issa, esse parlamento não referendou o GNA, pois sua lealdade está com Khalifa Haftar.

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Trump, Putin e o futuro

A desordem na Líbia não degringolou para uma divisão do país pois duas instituições essenciais – o Banco Central e a estatal Corporação Nacional do Petróleo – atuam de forma totalmente autônoma, transacionando com governos e corporações internacionais e mantendo relações tanto com o GNA de Sarraj quanto com Haftar.

Manter os atores políticos dependentes dessas instituições para receber as verbas da produção de petróleo, a maior fonte de renda nacional, é uma estratégia da comunidade internacional para garantir influência na Líbia, mas trata-se de um paliativo, uma vez que ainda falta legitimidade ao governo do GNA.

O futuro do país depende, em larga medida, da política desenvolvida pela administração de Donald Trump nos Estados Unidos.

A Europa parece engajada em fortalecer o GNA e insiste na tentativa de fazer Haftar atuar sob o comando do governo Sarraj. Em maio de 2016, o premiê de Malta, Joseph Muscat, visitou Trípoli. Mais recentemente, a Itália foi o primeiro país estrangeiro a reabrir sua embaixada na Líbia. Não à toa. Além de questões securitárias, a multinacional petrolífera italiana Eni explora óleo e gás na costa de Trípoli.

Em fevereiro, o secretário de Defesa do Reino Unido, Michael Fallon, afirmou que os acenos russos a favor de Haftar eram uma provocação de Putin, em uma tentativa de testar a Otan. “Não precisamos do urso colocando suas patas lá dentro”, disse. Sergey Shoigu respondeu prontamente, como mostra o vídeo abaixo, indicando que o Reino Unido não tem força para contestar Moscou.

Sozinha, a Europa tem pouca força para guiar os rumos da Líbia. O fortalecimento do GNA só tem chances de ter sucesso caso Washington se engaje nessa empreitada, mas não se sabe o que virá da Casa Branca.

A depender de Trump e de seu círculo mais próximo de auxiliares, poder-se-ia esperar dos EUA uma posição pró-Haftar, que se apresenta como bastião contra o islã político e o “terror”. Figuras sãs dentro da administração, como o secretário de Defesa, James Mattis, podem dissuadir Trump. O alinhamento ao Egito e aos Emirados Árabes seria uma catástrofe, pois a abordagem defendida por esses países traria mais divisão e radicalismo para o cenário líbio, ao tentar retratar a situação como um conflito entre islamistas e seculares.

Essa é só uma das dimensões do caos na Líbia, marcado também por divisões étnicas, geográficas e rancores atuais, surgidos após Kadafi, bem como antigos, suprimidos pelo ditador. Para se ter ideia da complexidade: Haftar, dito baluarte contra o islã político, mantém a seu lado um grupo salafista ultrarradical, que tem inclusive uma brigada militar atrelada ao Exército Nacional Líbio.

Putin: ele pode ter ganhos na Líbia com custos muito baixos (Foto: Divulgação / Kremlin)
Putin: ele pode ter ganhos na Líbia com custos muito baixos (Foto: Divulgação / Kremlin)

O que parece certo na Líbia é o avanço da Rússia como árbitra. Em 20 de janeiro, a estatal petrolífera líbia assinou um acordo de cooperação com a gigante russa Rosneft. Em entrevista recente à agência Reuters, Sarraj abriu as portas para a mediação de Moscou e também para trabalhar ao lado de Haftar. Este insiste, no entanto, no desejo de controlar todo o território líbio.

Hoje, diante do status quo militar atual, esta é uma aspiração impossível de ser realizada, mas as coisas podem mudar rapidamente. Todas as condições que propiciaram a instalação do Estado Islâmico em território líbio continuam existindo e o grupo deve em breve se tornar uma insurgência, com ataques esporádicos. Ao redor de Trípoli, milícias seguem em conflito aberto, sem que o GNA tenha capacidade de intervir – em 20 de fevereiro, o próprio comboio de Serraj foi alvo de um atentado.

Haftar, e a Rússia, observam, cientes de que a falência do governo apoiado pela ONU significaria espaço aberto para eles. O general poderia se impor como a força dominante na Líbia e a Rússia mostraria força patrocinando um novo acordo político em substituição ao gerado pelo Ocidente.

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